
Antes de introduzir o disco da semana, farei um pequeno resumo sobre a artista em questão. Analisar os caminhos que Liz Phair escolhe para sua carreira é algo bastante curioso. A cantora, que surgiu nos anos 90 como um dos grandes nomes do rock confessional feminino, lançou um dos discos independentes de maior peso na década citada, o ótimo “Exile In Guyville” e construiu um repertório autoral digno de colocá-la ao lado das grandes artistas da música surgidas no mesmo contexto, como Alanis Morissette ou PJ Harvey. Relacionamentos amorosos, frustrações de seu cotidiano, experiências sexuais, questões pessoais, eram alguns dos temas abordados pela moça, que o fazia de forma bem humorada, criativa e pungente. Colhia elogios a cada novo lançamento.
Nos anos 2000, tornou-se, digamos, mais “flexível” com as músicas que compunha: depois de um período afastada dos estúdios, retornou em 2003 com um disco homônimo muito divertido, mas composto por canções mais pop e acessíveis do que jamais havia gravado, sendo esmagada por público e crítica, que decepcionou-se com aquilo que Liz oferecia. O sucesso “Why Can’t I?”, que estourou na trilha do filme “De Repente 30” é dessa época. Na sequência, o morno “Somebody’s Miracle” foi ainda menos bem recebido e Liz, dispensada pelo selo “Capitol”, que lançava seus discos, vive agora num quase ostracismo, reconhecida somente por seus CDs mais antigos e com atenção quase nula direcionada aos lançamentos.
Entender esse pequeno processo é importante para compreender um pouco sobre “Funstyle”, seu novo trabalho que está na praça. Geralmente, quem tem pouco a perder tem duas alternativas: arriscar menos, com medo de chegar num nível ainda mais baixo, ou arriscar ainda mais, pois sabe que não pode ficar muito pior do que está. Em seu site oficial Liz Phair comenta sobre o lançamento – tão inesperado que nenhum fã imaginava que já havia um disco novo na praça: “você não deveria ouvir essas canções. Elas me fizeram perder meu empresário, meu contrato e várias noites de sono”. Diz ainda que elas não podem ser encaradas como mais do que louca jornada pessoal; decididamente, a moça resolveu “ligar o foda-se”: e essa atitude não podia ter sido mais surpreendente.
Em onze novas faixas, Liz não poupa ninguém: satiriza a industria fonográfica, ela própria, brinca com sua voz de forma nunca antes ouvida, arrisca sonoridades diferentes daquelas que já havia experimentado. Consegue criar uma ou outra canção “séria” consistente, que pode não ser uma obra prima super original, mas merece ser ouvida, sem ser previamente massacradas pelo gosto público como aconteceu com seus lançamentos anteriores. Tudo soa, porém, tão despretensioso que a gente não questiona que a cantora esteja fazendo exatamente aquilo que deseja.

O disco abre com a breve canção introdutória “Smoke”, onde Liz dialoga com a voz de sua consciência, pronta para dizer à artista que seu disco não será lançado e que ela está prestes a “cometer suicídio” na carreira, com um segurança intransigente e um executivo oco que mais parece um cão ganindo. É difícil não rir. “Bollywood”, primeiro single, mantém o mesmo tom da faixa anterior. Numa espécie de rap indiano, Phair fala sobre propostas de emprego frustradas, péssimos salários, o peso da idade chegando e a dificuldade para arranjar boas oportunidades no meio artístico – tudo isso numa base contagiante e frenética. É uma pequena loucura, e dá vontade de ouvir de novo quando chega ao fim.
“You Should Know Me” e “Miss September” colocam seus pés no chão novamente, com Liz assumindo um tom mais contido. Ambas são canções de amor básicas, comuns e sem grandes atrativos: a primeira sobre procurar saídas para melhorar um relacionamento a dois e a segunda, cheia de pensamentos sobre arranjar forças para sustentar um relacionamento onde os fatores externos só atrapalham. Clichês na abordagem, mas ainda assim boas.
“My, My” em que clama ser uma menina malvada, é sexy, com ares de “road music”. Nessa e em “Oh, Bangladesh”, soa como Sheryl Crow, de mãos dadas com seu lado pop blues. “Bang! Bang!” é um experimento bem vindo, com toques eletrônicos, ecos e um tom meio sufocante. “Beat Is Up” é outra faixa onde a moça libera seus bom humor e parece mais solta do que nunca. A canção traz trechos do discurso de um suposto “guru”, dizendo que as pessoas devem agir positivamente e outros diversos conselhos para uma suposta vida melhor: em contraponto, Liz encarna diversas personagens que possuem pontos de vista peculiares sobre diversas questões da vida, nem sempre politicamente corretas.
“And He Slayed Her” sugere lembranças da vida da artista: ela relembra tempos onde todos em sua cidade a classificavam de alguma forma e de como expurgou suas mágoas através da música. É um bom momento, sincero e onde a banda de apoio se faz notar. “Satisfied” é aquela que mais possui vocação pra hit e de mais fácil digestão. Antes de terminar “Funstyle”, Liz permite-se brincar um pouco mais: debochando, diz em “U Hate It” que é uma “gênia”, mostrando grande empolgação com o resultado final que seus fãs irão ouvir – a faixa é até interrompida por um falso discurso seu, como se estivesse ganhando um prêmio de música pelo seu novo disco. Enquanto isso, vozes no fundo (inclusive um coro puxado por ela própria) dizem o quanto ele “fede” e é detestável. O resultado é cômico!
Liz Phair entregou um álbum pessoal, mas diferente do que poderíamos esperar dessa categoria. Ele possui uma grande dose de desprendimento, que só agrega à tal “jornada sonora” da loira, onde compartilha suas dores e delícias com o público. Está longe de ser o melhor disco de sua discografia, mas é um dos mais corajosos; a ousadia demonstrada por Phair ao satirizar impiedosamente seu próprio universo é coisa rara, e surpreende num momento em que muitos dizem que sua “bagagem” criativa está gasta.
Prova que o limite, nesse caso, é sempre um pouco maior, e mesmo em tempos de pouco reconhecimento, sempre vale prestar atenção no que ela tem a dizer.
ps. Mas Liz… print screens não rendem boas capas de discos, ok?