
“Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim.”
Clarice Lispector.
Dizem que é difícil definir alguém com palavras. Mais do que difícil: é perigoso. E a missão se torna ainda mais arriscada quando esse alguém é Clarice Lispector.
Tida por muitos como a maior escritora brasileira de todos os tempos (o curioso é que ela nasceu na Ucrânia e veio pra cá ainda neném), Clarice Lispector foi uma mulher à frente de seu tempo. Corajosa, dona de um espírito único e vívido, Clarice conseguiu imprimir em seus livros sua personalidade como poucos foram capazes. Dona de um estilo singular, ela não teve medo de se mostrar. Suas linhas mais pareciam uma extensão de si. Toda palavra, toda vírgula, todo ponto, iam de encontro aos questionamentos mais íntimos e sinceros que todos passam ao menos uma vez na vida, mas que a maioria não sabe como exprimir.
A descrição do cotidiano e de toda sua banalidade ganhava contornos únicos em suas mãos. Ela não descrevia apenas cenas concretas. Ela conseguia colocar no papel sensações e sentimentos que aconteciam por dentro. Ir a feira, passear pelo jardim, se arrumar para o esposo, andar de ônibus, ler uma notícia chocante no jornal. Talvez o mais impressionante em sua obra é a sensação de que qualquer coisa possa ser o estopim para uma revolução. Uma revolução interna e devastadora que só a solidão poderia construir.
Essa introspecção e esse domínio da linguagem (há quem diga que Clarice consegue escrever poesia em prosa), fizeram com que seu acervo fosse descoberto e redescoberto pelas gerações posteriores a sua. Mesmo após 32 anos de sua morte, os questionamentos e certezas que ela colocava no papel ainda fazem sentido. E foi essa intensidade toda que fez com que Clarice, mesmo após tanto tempo, continuasse relevante não só no que se refere a literatura, mas também ao que se refere à vida.
Leia aqui Uma Galinha, conto presente no belíssimo Laços de Família, da Editora Rocco.
É, Clarice se foi há exatos 32 anos. E ler seus textos só traz saudade. Porque como diria a própria…
“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.”
Clarice Lispector.
10/12/1920 – 09/12/1977
#DeveLer: A Hora da Estrela, O Primeiro Beijo, Laços de Família e A Paixão Segundo G.H.
















Sou leitora quase compulsiva de Clarice desde 1992, penso que ela seja atemporal, até cheguei acreditar um dia que talvez visionária. Não, hoje entendo, ela vive pelo sentido humano existencialista que deu a sua vida, viveu profundamente seus medos, amores, família, sem fazer concessões, sua opção por escrever mesmo quase no final da vida tendo iniciado a negação de seu talento maior que é escrever, com a alma de quem percebe o que está além….a subjetidade Clariciana me atraiu e eu cai na armadilha…aceitei correr o risco de ousar ser tudo em sua essência… Todos que arriscam ver o mundo com sensibilidade e acuidade vão achar em Clarice motivos para conversar com sua obra, pois ler Clarice é dialogar com o que somos, o que o outro é e o que somos juntos nesse mundo…acho que é um pouco isso….
Na verdade, ela sempre temeu se expor… principalmente nas crônicas. Mas isso era tão contra sua natureza que ela não conseguiu se segurar: se abriu, nos abriu, abriu todo o inconsciente coletivo de uma geração (nova) que a ama. Sempre me pergunto porque tantas pessoas novas amam e veneram a C.L. Imagino que seja porque essas mesmas pessoas passam po um momento histórico incomparável: um pós-modernismo, pós-positivismo, pós-saudosismo… pós-tudo. Fecha-se parece ser a saída. Isso é o que C.L. adiantou para todos nós… Mas como disse, apenas imagino. Deixo para ela me explicar, um dia-quem-sabe, num momento de graça.
Luiz