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A Redoma de Vidro, Sylvia Plath

Caso você já tenha assistido ao filme “10 Coisas que eu Odeio em Você“, deve ter reparado que a protagonista, Katerina (vivida por Julia Stiles), têm, entre suas preferências culturais o livro “A Redoma de Vidro”, da escritora americana Sylvia Plath. Na última semana, comecei a ler o mesmo título que a personagem adora, e devo concordar que é realmente muito bom – e minha dica de leitura dessa vez. =)

“A Redoma de Vidro” foi lançado em 1963 e é o único livro narrativo da autora Sylvia Plath, que publicou diversas coletâneas de poemas durante sua vida. É, sem dúvida, uma obra bastante autobiográfica – compreendê-la  é, também, entender um pouco do universo interior de Plath, uma mulher intrigante e que expunha conflitos pessoais que, muitas mulheres naquela época sentiam-se obrigadas a conter.

Sylvia Plath nasceu em Massachusetts e sempre foi uma pessoa intrigante. Desde jovem, possuia uma personalidade incrivelmente inconstante, com crises nervosas freqüentes, que não cessariam até seu suicídio, aos trinta anos. Por outro lado, sempre teve um enorme talento para a escrita. Ganhou inúmeros prêmios estudantis devido aos seus dotes precoces e aprendeu a canalizar as diversas agruras que passava em sua vida na literatura. Vários elementos de seu cotidiano, como a morte prematura do pai, a repressão imposta pela sociedade na década de 50/60, a frustração com o modelo do “homem padrão” da época, com o trabalho, com sua própria pessoa e diversas outras inquietações.

A heroína do livro, Esther Greenwood é como se fosse uma “outra metade”, um alter-ego da escritora, e podemos associar diversas características da personagem à sua criadora, além de traçar um paralelo entre os acontecimentos que se desenrolam em suas vidas. Assim como Esther, Sylvia também trabalhou como estagiária numa revista feminina na cidade de Nova York, sentia-se desestimulada pela profissão e também ao voltar para o interior, que lhe oferecia ainda menos possibilidades de vida do que a estadia na cidade grande.

E, além dessas passagens, estão presentes na narrativa também as diversas “crises” que Sylvia teve na vida real, os tratamentos (de uma forma até atenuada, se comparar com os eletrochoques e terapias que, diz a lenda, Plath era submetida) e uma tentativa de suicídio entre várias, estimulada por pílulas para dormir. A forma como conta sobre todos esses acontecimentos e analisa sua vida parece até demonstrar uma certa frieza em relação à eles. Sob a pele de Esther, a escritora está aparentemente segura. No final da história, a personagem consegue, de certa forma, encontrar um  escape para tudo isso, e, aos trancos e barrancos, estabilizar-se.

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Na vida real, as coisas, antes tão semelhantes a ficção, aconteceram de forma diferente. Quando adulta, Sylvia casou-se com o poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos e uma relação acima de tudo muito conturbada. Dedicou-se a ampliar seus estudos literários que já eram fluentes nessa fase, foi abandonada pelo marido depois de tê-la traído com outra mulher, e entregou-se a mais profunda tristeza devido a esse acontecimento. Seus textos mais doloridos foram criados nessa fase, e, em 11 de Fevereiro de 1963, a escritora e poetisa deu fim a sua vida inalando gás de cozinha enquanto seus filhos dormiam no quarto ao lado.  Tudo que restaria depois disso seria lançado como obra póstuma.

Ao ler “A Redoma de Vidro”, acabamos pensando “caramba, ela passou por tudo isso?” – usando a lógica de que Esther é a versão literária de sua autora. É claro que algumas das coisas relatadas na história podem ser apenas detalhes criados para amarrar a ficção de forma convincente, mas por outro lado, não é difícil imaginar que tudo pode ter, de fato, acontecido. Esther não passa por situações absurdas e fora do comum, pelo contrário; ela confronta situações naturais e ao mesmo tempo bastante pesadas, que podem estar ao alcance de qualquer outra garota ou de qualquer um – dependendo apenas de certas decisões que as pessoas tomam. Acertadas ou não, foge do nosso alcance compreendê-las sempre, assim como Esther-Sylvia desejava fazer, em sua procura incansável por uma razão para sua(s) vida(s).

Escrito nos dois anos que precederam sua morte, “A Redoma de Vidro” foi lançado apenas um mês antes de seu suicídio, e Sylvia assinou a primeira edição usando um pseudônimo, “Victoria Lucas”. Existem suas coletâneas de poemas, traduzidas para diversos idiomas e elogiadas por todos – mas provavelmente nenhuma delas foi tão eficaz na tarefa de expressar o desespero humano, a desesperança e o fato de sentir-se diferente de todos numa época em que as pessoas pareciam iguais e ambicionavam as mesmas coisas. O livro de Sylvia, mesmo depois de quase meio século escrito e publicado, é muito atual. É sempre interessante concluir que sentimentos são, algumas vezes, iguais para todas as pessoas – mesmo quando nos sentimos como se fossemos os únicos a mantê-los dentro de nós e independem de épocas, conceitos da sociedade e outros fatores que são insignificantes para se manifestarem.

A REDOMA DE VIDRO
Autora: Plath, Sylvia.
Tradutor: Luft, Lya.
Editora: Globo.
Ano de lançamento: 1963.

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Formado em jornalismo, 21 anos. Adora frases de impacto, sorrisos e situações nonsense. Escreve ficção casualmente, ama música, cinema, literatura, e essas coisas que tornam a vida melhor.

3 Comments on "A Redoma de Vidro, Sylvia Plath"

  1. Sanny disse:

    Muito bom seu texto Renato, e me deu vontade tbm de ler!!!

    =)

  2. Thiago disse:

    UAU. É tudo que eu consigo dizer após ler isso. Muito bom texto, super bem escrito e coerente. Cara, sou teu fã, de verdade. Já tinha curiosidade antes sobre esse vidro (muito por causa da Kat, confesso! hahaha!), mas agora passou de curiosidade para NECESSIDADE de lê-lo. Ah! E sabe uma coisa legal tb? Tem um filme em que a Gwyneth Paltrow a intepreta. Nem vi, ACHO que é de 2004… ACHO que chama Sylvia. ACHO que tô dando muitas informações incertas. Rere. Parei.

    Mas mais uma vez, parabéns. Ficou MUITO íncrivel.

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