Caso Janis Joplin estivesse viva, completaria hoje 69 anos.
Se ela seria considerada a lenda que é hoje ou mesmo se ainda teria a mesma voz, são questões que não me preocupo em discutir ou mesmo em pensar. O que me interessa em Janis é o talento. A capacidade de transformar suas canções em algo inimitável. A voz áspera, densa, cheia de variações – que vai da mais absoluta tristeza a agressividade de um Jim Morrison em questão de segundos – e com uma facilidade que só confirma que, para ela, cantar era tão natural quanto o ato de respirar é para todos os seres humanos.
É isso o que eu gostaria de mostrar com o cover de hoje. Poderia ter escolhido Summertime, um clássico regravado milhões de vezes, mas optei por Little Girl Blue porque essa música é, até em seus menores detalhes, Janis Joplin.
Apesar de ter se popularizado na maravilhosa versão de Nina Simone, Little Girl Blue foi originalmente gravada por Gloria Grafton (infelizmente não encontrei nenhum vídeo no Youtube). Composta em 1935, por Richard Rodgers e Lorenz Hart, a faixa fala sobre infelicidade, tédio e desesperança. Sobre chegar a aquele ponto em que tudo o que se pode fazer é sentar e contar os pingos de chuva. E isso acontece de um modo tão simples e tão honesto que fez com que ela acabasse caindo no gosto de diversos cantores cujo estilo apontava, ainda que apenas em alguns momentos, para o confessional.
Por Janis, a canção foi gravada em 1969, em seu primeiro álbum I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!. Sua versão é memorável por conseguir captar toda a vulnerabilidade expressa na letra de um modo que ninguém havia conseguido antes. Há outras boas versões, claro, mas nenhuma tão emocional quanto. Ao ouvir Little Girl com Joplin, temos a impressão de que sua alma é realmente torturada por aqueles sentimentos. Na verdade, não é impressão. Quando Janis Joplin canta temos certeza de que ela coloca toda a sua alma nesse ato.
Janis Joplin soube, como ninguém, mesclar o rock’n’roll e o blues de modo que, em algumas de suas gravações, nos esquecemos de tudo o que foi feito antes e temos a sensação de que ela está fazendo algo inaugural. E é isso o que faz um cover ser grande: a capacidade de pegar algo, especialmente quando já foi gravado por grandes artistas, com grandes vozes, e fazer parecer que foi criado para você. Aliás, eu iria mais além e diria que é isso o que faz um grande artista. E Janis, definitivamente, foi uma grande artista.
Ouça e tire suas próprias conclusões.

















Amo demais essa música (e essa versão) e ela já me acompanhou em muitos momentos de lágrimas…
Te contar que se você não diz, morria jurando que a música era dela mesmo.
Eu conheço essa música por causa da B. Holiday. A primeira vez que ouvi a Janis cantando foi quando baixei uma edição do Pearl e ela veio como b-side. Depois procurei saber e descobri que ela só gravou porque amava B. Hahaha. Achei tão fofo.