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#DiscosEssenciais: “When The Pawn…”, de Fiona Apple

When the pawn hits the conflicts he thinks like a king /What he knows throws the blows when he goes to the fight/And he’ll win the whole thing ‘fore he enters the ring/There’s no body to batter when your mind is your might/So when you go solo, you hold your own hand/And remember that depth is the greatest of heights/And if you know where you stand, then you know where to land/And if you fall it won’t matter, cuz you’ll know that you’re right.”

Fiona Apple fez parte de uma leva de artistas competentes, surgidas no fim dos anos 90, que pareciam não ter papas na língua e nem amarras pra mostrar o que fervilhava em suas mentes e corações.

Quando seu primeiro disco, Tidal, foi lançado em 1996, o mundo foi pego de surpresa pela sua personalidade intrigante, sua presença misteriosa e seu talento arrebatador. O álbum chamou a atenção da mídia especializada pelo tom confessional, poético e ao mesmo tempo bruto com que Fiona escancarava situações de sua vida pessoal. Contendo músicas de grande impacto, os relatos tinham uma sinceridade quase desconcertante. Os temas escolhidos contavam aspectos importantes e íntimos, como o estupro sofrido pela artista aos 12 anos, que foi retratado de forma sutil na canção Sullen Girl.

Depois da ótima recepção de seu debut pela crítica, era de se esperar que no período seguinte ao lançamento do álbum Fiona estaria no centro dos olhares. O problema é que Fiona Apple não é (nem nunca foi) uma pessoa apegada ao circo da mídia e da atenção pública. Naquele tempo, muitas de suas declarações foram incompreendidas pelo público, por jornalistas e até membros da classe artística. Uma prova disso que não pode deixar de ser citada foi o polêmico discurso de agradecimento que realizou no MTV Awards de 1997 ao receber o prêmio de Best New Artist por “Sleep to Dream”, onde criticou as aparências do mundo da fama e disse que de nada valia ser famoso se não pudesse ser quem você é de verdade. Hostilizada, sua sinceridade acabou sendo confundida com arrogância. Massacrada pela crítica, Fiona encontraria a melhor forma de dar uma resposta a altura para todos: lançaria um novo álbum, ainda melhor do que seu antecessor.

When The Pawn… foi lançado em 1999 e, de cara, já quebrou um recorde: o disco de maior título da história da música. Sim, aquele pequeno poema do início do texto – escrito como um revide às críticas ferrenhas que havia recebido pelo seu comportamento não muito fácil durante a divulgação de Tidal - é o nome do álbum, que aparece estampado sob o rosto de Fiona, em tons de vermelho. Ao contrário da gélida capa de Tidal, em When The Pawn… Fiona aparece com um largo sorriso, que parece muito mais motivado pelo deboche do que por alegria genuína. É como se ela risse de tudo o que estivesse passado nos últimos anos e soubesse que o melhor ainda estava por vir.

Com apenas 10 canções, When The Pawn… pode ser considerado um clássico instantâneo, em que todas as faixas são verdadeiras músicas de destruição em massa (desculpe, Annie Lennox, por pegar o nome de seu disco emprestado).

Produzido por Jon Brion, que posteriormente  trabalharia com Aimee Mann na trilha sonora do filme Magnólia, When The Pawn… traz diversos elementos do jazz e toques de soul, que guiam a voz angustiada e cheia de sentimentos da cantora. À primeira vista, o disco parece mais “polido”  que o anterior, mas quando escutamos o álbum com mais atenção notamos que é cheio de emoções tão duras quanto as contidas em seu cd de estréia. A sutileza de Fiona Apple consegue ser sentida em cada sílaba entoada, sendo meiga, cínica e aterradora numa mesma música.

Falar sobre sua obra é uma tarefa arriscada: suas composições são ricas e uma simples mensagem nas entrelinhas pode mudar todo o significado de uma música.

On The Bound, a desesperadora primeira faixa, começa com toques de piano, o melhor amigo da cantora em vários momentos. Nela, Fiona expõe suas dúvidas perante uma nova empreitada, que, no contexto da canção, se referem a muito mais do que apenas o lançamento de um novo disco. Apple diz “olá” fazendo com que se sinta esse aperto no peito que se repetirá nas outras 9 músicas que estão por vir.

To Your Love é uma canção que, no início, consegue enganar. Fiona diz, logo na primeira linha: “Here’s another speech you wish I’d swallow (Esse é outro discurso que você gostaria que eu engolisse)”. Totalmente livre, ela faz com que seu parceiro, aparentemente desapontado com a complexa  personalidade da artista, ouça, mesmo contra sua vontade, tudo o que ela tem a dizer. Fiona começa mansa, pedindo perdão pela sua distância, justificando que a dor e a vergonha que sente no coração são alguns dos motivos para que o amor entre os dois cresça. Ela conduz a faixa dessa forma até o meio, quando a melodia sofre uma mudança brusca e Fiona proclama que todo sofrimento e dor são dedicados “ao seu amor”.

Limp, logo em seguida, parece ser a conclusão de que o amor de sua vida pode não ter intenções tão boas quanto parece. Fiona retrata uma situação de paixão e desapego que reduz seu parceiro ao mesmo nível de qualquer outro homem desconhecido: “I never did anything for you, man”, defende-se, enquanto diz que está cansada de ser dominada e que não levará muito tempo até que o rapaz seja envolvido pelos seus próprios vícios e sentimentos ruins.

Love Ridden, a 4ª faixa, é uma das melhores do disco. É claramente o relato do fim de um relacionamento. A cantora parece ainda nutrir algum tipo de sentimento pelo ex. “Eu quero seu calor, mas isso só vai me tornar mais fria quando chegar ao fim. Então, essa noite, eu não posso, meu amor. Não, não tem mais essa de “meu amor”: quando precisar de você, te chamarei pelo seu primeiro nome, e apenas beijos no rosto de agora em diante.” Preciso dizer mais alguma coisa? É o tipo de música que te faz chorar mesmo que você nunca tenha vivenciado a situação descrita. O desespero na voz da cantora só reforça a dualidade de seus desejos, que estão plenamente evidentes aqui.

Paper Bag é a faixa favorita do blogueiro que vos escreve. Nela, Fiona não se envergonha de se mostrar desapontada pela personalidade de seu parceiro, que não possui o tato e a sensibilidade que ela gostaria de encontrar nele. A letra da música mais parece uma poesia – as imagens criadas pela artista pra definir sua frustração são lindíssimas: ela espera agarrar o “pombo da esperança”, mas ela se confundiu – ele é apenas um saco de papel. É algo tão duro, mas dito de forma tão natural que quase dá pra rir de sua falta de sorte. Seu canto também reflete este descontentamento: “I thought he was a man, but he was just a little boy”. Antes dessa frase, sua respiração cansada mostra como está o seu estado de espírito. Se ela não dissesse uma palavra, nos entenderíamos tudo.

Em A Mistake, Fiona aparece quase cínica, dizendo que vai cometer um erro novamente, como se anunciasse à todos o perigo que está prestes a surgir e, no fundo, se divertisse com a possibilidade. Dá até pra sorrir e compactuar com ela quando canta “So I’m gonna fuck it up again”, em determinado momento. Ela também anuncia, em tom quase zombeteiro, ser alguém de quem todos devem fugir na faixa seguinte, Fast As You Can, um dos três singles retirados do álbum (junto com Paper Bag e Limp), o mais rápido que puder. Fiona brinca e aparece ofegante nessa faixa, que é quase impossível de cantar como ela faz.

Conflito semelhante é retratado em The Way Things Are, onde atesta não ser acostumada a ter segundas chances e que, no caso de ser maltratada por alguém, conseguirá dessa forma passar por cima de tudo e continuar movendo-se.

Get Gone consegue o feito de ser mais assumidamente uma canção de revolta do que Limp. Nela, a moça descobre o que pode ser melhor pra ela (ou não?) e entoa com voz firme, que é uma idealizadora, e que isso é algo péssimo para si mesma. Até quase perder o ar, frisa que continuará “cantando, cantando e cantando“, pois não consegue mais suportar tal situação. A letra forte quase soa paradoxal com a faixa anterior. Na melhor das hipóteses, podemos crer que se mover não é tão fácil quanto parece.

Para finalizar, garanto que I Know é uma das músicas mais tristes que você ouvirá em sua vida. Depois de tanto lutar contra aspectos de sua personalidade, amores mal resolvidos e tentar resolver questões existenciais durante todo o disco, Fiona termina o álbum com uma canção onde se mostra absolutamente conformada com a indiferença do seu objeto de afeição. A faixa, tensa em diversos momentos e surpreendentemente calma no final, é insuportavelmente dolorida, melancólica, densa e linda.

Apesar dos diversos tapas na cara levados por ela, ainda resta um resquício de esperança, mesmo que na sua total e cega doação ao outro: “E se ficar muito tarde para mim esperar/ Até você descobrir que me ama e dizer/ Tudo bem: não precisa falar.” Arrepiante.

When The Pawn… é, sem dúvida, um dos discos mais memoráveis das últimas décadas. Como num fluxo de consciência, Fiona se despe totalmente de pudores e revela suas crenças e desejos mais íntimosDepois sem medo. Muito mais do que um apanhado raso de lamentações, Fiona mostrou ter muita munição para deixar a todos estarrecidos, e fez isso com toda sutileza.

Um murro no estômago nunca foi tão gostoso – e tão delicado.

Depois dele, Fiona lançaria em 2005 o também excelente (mas não tão arrebatador quanto) Extraordinary Machine, mas isso é outra história…

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Formado em jornalismo, 21 anos. Adora frases de impacto, sorrisos e situações nonsense. Escreve ficção casualmente, ama música, cinema, literatura, e essas coisas que tornam a vida melhor.

14 Comments on "#DiscosEssenciais: “When The Pawn…”, de Fiona Apple"

  1. Thiago disse:

    Eventualmente volto ao disco. É meio engraçado isso. O magnestismo que ele propõe. Acho que o When The Pawn… foi um dos discos que mais ouvi durante toda minha vida. E toda vez que o coloco para tocar novamente, é como se eu o ouvisse pela primeira vez. Eu não enjôo. Ele não envelhece.

    Hoje de manhã foi um desses dias em que eu cheguei a ele de novo. E foi muito bom, sabe? Quase sempre é. Ao contrário das outras vezes, hoje me identifiquei mais com o que ele diz.

    … Aí tive a ideia de reler seu texto. E sabe, assim como o disco, ele continua ótimo.

  2. Juliano disse:

    a dor em forma de música- – necessária ser sentida pra ser apreciada.

    ótima crítica, corrobora o que todo fã de Fiona nutre por esse álbum.

  3. erica disse:

    realmente esse cd é o melhor
    muito bom os comentários do blogueiro sobre o cd

  4. Pedro disse:

    Fiona Apple é a melhor.
    When the pawn é o meu preferido!
    Ao contrário da pessoa lá de cima, eu li todo o texto, que ficou muito bom,…

    =)

  5. Willians disse:

    Eu não costumo deixar de ler um artigo num blog pq é grande demais, até pq eu faço artigos grandes pro meu blog. Mas esse tá grande demaaaaais.
    Nemli

  6. Renato disse:

    PC, obrigado pela correção. Foi uma confusão boba, já está corrigida! :)

    Concordo com quem elege o JLP como o melhor da década de 90 no quesito “cantoras”. haha. “When The Pawn” é incrível, é tudo isso que foi dito e muito mais, mas pra mim JLP é uma obra prima, até falei dele num DiscosEssenciais passado… Marcou minha vida! :D

  7. Tonny Aranha disse:

    Perde apenas para o “Jagged Little Pill” da Alanis Morissette. [2]

    When The Pawn é um dos meus preferidos da Fiona.
    É muito bom, vale a pena conferir, foi o terceiro albúm que mais ouvi ano passado, perdendo apenas para o Jagged Little Pill (1995) e pro Supposed Former Infatuation Junkie (1998), da Alanis Morissette.

    P.S: Eu sei cantar TODA a letra de Fast As You Can no ritmo e no tom. ;-P

  8. Rodolfo disse:

    “When The Palm…” é o meu 2º disco preferido da década de 90. Perde apenas para o “Jagged Little Pill” da Alanis Morissette. Fiona Apple é uma das melhores cantoras e pianistas que eu já ouvi. Além de ser linda de uma forma diferente.

  9. Filipe disse:

    Ótima crítica do CD, Renato!

    • PC disse:

      A crítica está impecável, vc tirou da boca de qualquer fã tudo oq ele sente a respeite desse album. Só gostaria de fazer uma correção: o discursso da fiona foi no VMA’s de 1997 e ela ganhou o premio de new artist pela musica Sleep to Dream. Adorei o blog, eu tinha um blog de cinema com uma amiga tbm jornalista mais ambos desanimamos com a falta de acessos, rs.

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