
Kylie é uma das maiores cantoras pop da atualidade e a impressão que fica algumas vezes é que está sempre comendo pelas beiradas. Famosa mundialmente, não possui a “força” de alguns outros nomes do gênero, mas tem identidade própria o suficiente para se sobressair no meio de uma porção de artistas femininas que vem e vão. Seu trabalho segue a mesma linha: é charmoso, muito bem produzido e verdadeiro. Kylie parece ter prazer em trilhar esse caminho musicalmente, e isso é essencial. Em alguns momentos ousa, em outros apresenta mais do mesmo, mas no geral, é tudo de primeira linha.
O ótimo “X”, de 2007, foi seu último disco de inéditas até então. Esse mês, Kylie lançou o seu sucessor, “Aphrodite”; produzido por Stuart Price (“Confessions on a Dancefloor”, de Madonna e “Day & Age” do The Killers) com participações de nomes como Jake Shears do Scissor Sisters e o DJ Calvin Harris, o álbum não traz nenhuma revolução para sua carreira. A questão é que mesmo sem inovar, seu novo compacto é tão simpático e redondinho que é difícil não gostar: com altos e baixos, é ótimo para ouvir sem grandes pretensões, divertir-se por um tempo e depois ficar cantarolando por aí.
Nesse álbum, Afrodite, a deusa grega do amor, torna-se alter ego de Minogue: a temática das canções gira em torno de relacionamentos e atrações amorosas, sem contar os usuais convites freqüentes para a pista de dança – não espere nada original sob esse aspecto. O primeiro single, “All The Lovers”, é a síntese das duas coisas: a faixa é uma ode à todos os amantes que habitam a terra, iniciada pela frase “dance/it’s all I wanna do, so won’t you dance?”, que explicita o tom dessa “falsa” balada, que apesar da letra banal, é certamente uma das melhores gravações do europop de 2010. Irresistível.
“Get Outta My Way”, próxima música de trabalho de Kylie é daquelas que nos fazem pensar, “poxa, mal posso esperar para ouvir essa aqui numa festa!”. Parece ter saído diretamente do disco “Fever” (2001) – aquele que trouxe a moça de volta para a grande mídia, com o hit massivo “Can’t Get You Out of My Head”. Ela se encaixaria perfeitamente ao lado de “Love at First Sight”, mas com menos brilho.

Outras faixas conseguem chamar a atenção de forma mais “fresca”, como o clamor sensual da cantora em “Closer”, meio Pet Shop Boys e que não parece completamente à vontade no meio de outras canções de sonoridade menos densas, mas um dos destaques de “Aphrodite” é a faixa título, retrô e com toques R&b, momento em que Kylie dialoga com seus fãs assumindo o discurso da deusa em questão.
“Illusion” é o tipo de canção que estouraria com o remix certo. “Too Much” soa como uma Roisin Murphy menos frenética e mais brincalhona. Ela prepara o ouvinte para o ápice do álbum, “Cupid Boy”, que, esperamos, também tenha seu lugar nas paradas mais à frente. Em “Looking For An Angel”, quase dá pra ter a visão da cantora cantando com diversos querubins atrevidos ao seu redor. (Ok, isso foi cafona. Kylie, nunca faça um clipe assim. É sério.) É um momento ingênuo e que tira sorrisos. “Can’t Beat The Feeling”, última faixa do disco, é o resultado do encontro de Afrodite com o dance farofa dos primeiros discos da cantora australiana. É quase datada demais, mas consegue cumprir a tarefa de fechar bem o disquinho.
Certas canções, como as mega comuns “Put Your Hands Up” e “Everything Is Beautiful” derrubam o “ânimo” de “Aphrodite” . Outro ponto negativo do álbum é que, estranhamente, as músicas que o compõem parecem funcionar melhor separadas: reunidas, tornam-se repetitivas – e a tarefa de ouvir o disco, por consequência, entediante. Como dito, o lançamento consegue se salvar, mesmo com alguns deslizes e sendo menos impactante do que prometia. No final das contas, ainda estamos falando de Kylie, e é sempre bom ter um novo trabalho seu nas lojas. O feitiço do amor de Afrodite pode não estar em seu auge, mas vai te conquistar ao menos um pouquinho.