Começou nessa segunda, dia 13, no Centro Cultural São Paulo, a mostra Rock Tarantino.
O evento, que acontecerá até o dia 31 de julho, tem como objetivo evidenciar os principais filmes que serviram como referência na criação do já clássico Kill Bill. Entre os filmes escolhidos há Jogo da Morte, com Bruce Lee; Era Uma Vez no Oeste, com Henry Fonda e Charles Bronson; Black Mama, White Mama, com a musa de Quentin Pam Grier e até Alfred Hitchcock Suspense: Episódio Perseguição Implacável, feito pelo titio Alfred (sério?).
Como se não bastasse, os fãs ainda poderão ver À Prova de Morte, do próprio Quentin além dos dois volumes de Kill Bill, que são a essência da mostra.
Oriunda da cena musical paulista, a cantora Tiê foi uma das maiores revelações da música nacional no ano passado. A artista, que recebeu esse nome em homenagem à um pássaro canoro – como explica na canção “Passarinho”, presente no seu álbum de estréia, “Sweet Jardim” – esteve envolvida com a produção musical desde sua juventude. Dos primeiros festivais de música do colégio onde estou, em São Paulo, até a produção do disco debut, Tiê se apresentaria em todo o país e também no exterior, sozinha ou muito bem acompanhada: ex integrante da banda de apoio do músico Toquinho, a paulistana já realizou parcerias com Dudu Tsuda, membro da banda Trash Pour 4 e, mais recentemente, com o francês Chris Garneau (que você já conheceu aqui no Miolão) e o brasileiro Thiago Pethit, outro músico de sucesso no cenário independente.
“Sweet Jardim” foi produzido depois de um processo bastante traumático na vida da cantora: ela permaneceu afastada dos palcos há poucos anos por um certo período, ao descobrir que possuía um tumor – felizmente, benigno – no pulmão. Se existe uma frase famosa que diz que “só quem experimentou o caos pode dar origem à uma estrela bailarina”, ela mostra fazer jus a realidade nesse caso: depois do período de recolhimento, cheia de dúvidas constantes sobre sua saúde e carreira e de uma recuperação de êxito, Tiê passou a trabalhar novamente com o mesmo foco de antes, inspirada pelas recentes experiências, e, claro, pela bagagem gigante que já carregava consigo. E dessa fase, surgiu um dos melhores trabalhos nacionais lançados em 2009.
Lançado de forma quase independente e produzido por Plínio Profeta, “Sweet Jardim” é um disco bastante cativante. Tiê não precisa de grandes produções para contar suas histórias – no caso dela basta a sua voz, um violão, um pianinho e talvez uma ou outra participação especial eventualmente. O foco no som de Tiê está também no tom confessional de suas letras, como se tivessem transformado em canção as correspondências secretas enviadas à alguém ou mesmo o diário de uma jovem, com questionamentos nem sempre fáceis de serem respondidos e sinceros, como se não houvesse ninguém para censurar esses pensamentos.
O disco começa com “Assinado Eu” (acima), a linda e dolorida faixa de abertura – que ganhou um videoclipe charmoso. Nela, Tiê cria coragem para contar a um caso amoroso sobre o peso que sente ocasionado por um relacionamento mal sucedido, dizendo que ainda deseja estar ao seu lado, mesmo que somente como amiga. “Dois”, ironicamente (ou não!) a segunda faixa do álbum, fala sobre a empolgação originada pelo surgimento de um novo amor e da vontade de se abrir completamente a ele. Dependo do seu humor, é impossível não sentir um certo nó na garganta com “Quinto Andar”, onde a cantora lamenta à um estranho sobre alguém que a deixou de lado. “Amor, por que eu te chamo assim, se com certeza você nem lembra de mim?”, ela diz. No caso, o “estranho” da letra é também todos nós, que nos compadecemos com o seu clamor.
Todas as músicas da cantora são autobiográficas e remetem a algo que vivenciou. Em entrevista para a Rolling Stone, Tiê disse que suas influências surgem por motivos diversos, desde o cheiro de charuto do vizinho, até algo que comeu, o filme que viu ou o seu gato de estimação, Jackson. (?) “Passarinho” e “Chá Verde” são duas das faixas onde isso parece mais evidente: a primeira, fala sobre a origem do seu nome e sobre suas ambições de vida, enquanto “Chá Verde” é o retrato mais fiel da fase de tratamento médico, para curar seu tumor – a bebida do título era indicada pelo seu acupunturista, um chinês que esteve envolvido em sua recuperação. A música, apesar de aparentemente triste, é bastante otimista, e fala dos planos que ecoam em sua cabeça e superam a doença e as chateações do momento.
Tiê flerta com outras línguas em algumas faixas do disco, como na atrapalhada lição de como falar outro idioma de “Aula de Francês” (abaixo) e “Stranger But Mine”, onde mostra, numa letra completamente desenvolvida em inglês o interesse por um semi-conhecido e sua vontade de fazê-lo subir para outro patamar. Ainda resta espaço em “Sweet Jardim” para a candura de “Te Valorizo”, para a história de amor quase angustiante e surreal de “A Bailarina e o Astronauta”, que fala de uma atração inevitável ocasionada por um acontecimento trágico, e a fantástica faixa-título, que conta com a participação de Toquinho e passa uma sensação de paz e esperança, ainda assim com uma pitada de tristeza que arrebata o ouvinte. Uma ótima forma de finalizar o charmoso álbum.
O disco fez com que as atenções da mídia se virassem, com justiça, para Tiê, que, entre outros feitos, concorreu ao VMB de Melhor Artista Independente no ano passado. Atualmente, a cantora está grávida de seu primeiro filho com o diretor e produtor Leandro HBL, e depois de um show no Centro Cultural São Paulo, em Dezembro, anunciou que entraria em férias dos palcos por essa razão. Paralelamente, trabalha na produção de novas canções para o seu segundo disco, com previsão de lançamento para ainda esse ano. Caetano Veloso, fã confesso da artista, fez uma lista das “pessoas que tornam São Paulo interessante” e não pôde deixar de inseri-la na mesma. O MIOLAOTEAM concorda, e recomenda o som dessa promissora artista paulista no dia do aniversário da cidade.