
O primeiro livro de Paolo Giordano é uma obra diferente, a começar pelo próprio escritor: italiano, 25 anos, doutorando em física, estreia no meio literário com esse romance extremamente incomum. Já na contracapa nos é dada uma pequena informação matemática, com um toque de poesia: “(…) entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente.” E é assim, de um jeito nada convencional, que somos apresentados aos protagonsitas da história.
Alice e Mattia são dois jovens diferentes, até, de certo modo, anormais. Dividido em partes, o livro nos conta vida desses dois jovens, revelando aos poucos seus segredos, desejos, medos e frustrações. A premissa pode soar dramática demais: Mattia tem uma irmã gêmea que sofre com problemas psicológicos e da qual sente vergonha. Alice é pressionada pelo pai para ser uma grande atleta, custe o que custar. E então, ao decorrer dos capítulos, entramos lentamente na infância desses personagens e assistimos de uma distância incômoda sua vida encaminhando-se para situações irreversíveis. Ao mesmo tempo que estamos perto o bastante para sentir os temores e anseios deles, estamos longe demais para interferir na história. E é assim que, logo nas primeiras 20 páginas, somos cativados por Alice e Mattia de um jeito tão intenso que sentimos simpatia, carinho, medo e nojo por esses personagens, tudo ao mesmo tempo.
Se o temor de que a história caia para o lado do drama apelativo existe, ele é logo dissipado. Giordano conduz a vida e os sentimentos dos personagens por uma linha frágil e ao mesmo tempo cheia de vida que consegue abordar temas difíceis com um olhar que de tão franco chega a ser desumano. Passamos por temas como homossexualidade, bullying, violência, anorexia, impossibilidade de comunicação e, principalmente, a falta de compreensão entre filhos e pais. Tudo isso sem jamais ser piegas ou moralista.
Conforme o livro cresce, os personagens crescem juntos. Acompanhamos sua adolescência e sua vida adulta em um mergulho cada vez mais profundo, decifrando cada pedaço deles e, de um jeito espantoso, nos identificando pelo menos um pouquinho com seus sentimentos e atitudes. Encontramos outros personagens no meio do caminho. Todos eles muito sinceros e bem construídos, por mais coadjuvantes que possam parecer. Nenhuma história é sem importância.
“A Solidão dos Números Primos”, embora fácil de ler, é difícil de digerir. É um soco no estômago com aquela força que só as palavras intercaladas por vírgulas conseguem carregar. Alice e Mattia são intensos, são difíceis e problemáticos, inseridos em uma sociedade que, como a nossa, não tem tempo de compreender pessoas diferentes. São, contudo, tão universais como cada um de nós e – mesmo que no início seja difícil de admitir – acabamos por sentir uma empatia enlouquecedora com essas duas personalidades. A história, de algum modo, flui além das páginas e quanto mais queremos ficar longe desses dois jovens, mais próximos ficamos. Ficamos tão próximos que quase nos tocamos.
Então, como se já tivéssemos sido avisados no princípio, sempre haverá um número par. Não é somente Alice e Mattia que são primos gêmeos. Nós, leitores, também somos. E por essa sensação “La Solitudine dei Numeri Primi” vale a pena ser lida.
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E MIOLÃO informa: os direitos autorais já foram comprados e em breve sairá nos cinemas a adaptação dirigida pelo também italiano Saverio Costanzo.
A SOLIDÃO DOS NÚMEROS PRIMOS
Autor: Giordano, Paolo.
Tradutor: Y. A. Figueiredo.
Editora: Rocco.
Ano de lançamento: 2009