
Fazia tempo que um filme de animação não me tocava da forma como “Up” fez quando o assisti pela segunda vez, essa semana. Na primeira, a situação não contribuiu pra que eu prestasse a atenção apropriada ao filme, e, por esse motivo, decidi assisti-lo novamente, com o olhar que uma obra da Pixar – que parece não ter limites quando se trata de bons filmes – merece.
“Up!” conta a história de Carl Fredricksen, um vendedor de balões de 78 anos viúvo que, prestes a perder a casa onde mora para construtores e ir parar em um asilo, resolve partir para longe daquele bairro… levando sua moradia junto. Sua esposa, que ele conhecera ainda na infância, tinha o sonho de morar ao lado da “Paradise Falls”, catarata existente na América do Sul, e esse é o destino pretendido pelo rabugento senhor, que mesmo após a morte de sua mulher, continua amando-a incondicionalmente e procura honrar sua memória e suas vontades. Devido à uma “falha” no plano, um obstinado escoteiro de oito anos de idade, obcecado pela idéia de “ajudar de qualquer forma” acaba embarcando na viagem junto com o protagonista da história.
Russel, o garotinho, também possui suas próprias ambições: ele procura, das formas mais desajeitadas possíveis ajudar Carl a cumprir seu objetivo, apenas para ganhar uma insígnia de “ajuda aos idosos”, a única que lhe falta. Ele possui a inocência condizente a uma criança, e a vontade de arriscar novas coisas que não condiz com a nostalgia e o jeito sistemático que seu acidental parceiro de viagem possui. Os aspectos mais evidentes de suas personalidades acabam colocando-os em situações impagáveis que fazem nossos rostos doerem de rir.
Nem precisamos dizer que esse embate irá gerar também situações desconfortáveis, mas oferecerá a eles a chance de abrir uma porta para a amizade genuína e talvez para, de certa forma, a “redenção”, caso seus desejos sejam alcançados. Só isso é o suficiente pra entender o mote da trama: as outras situações, personagens e afins vão surgindo e se desenrolando durante uma hora e meia, tempo que parece passar em 10 minutos.
Além da dupla de protagonistas, o filme também conta com coajuvantes de peso, como o cachorro (falante?) Dug, que entra fácil na mesma galeria de personagens animados adoráveis que roubam a cena em que se encontram (como por exemplo a Dory, de “Procurando Nemo”), e Kevin, a espalhafatosa ave que é objeto de cobiça dos vilões do filme.
Dizer que “Up” é mais um filme infantil seria uma injustiça tremenda. O desenho possui nuances que uma criança dificilmente compreenderia plenamente, e é nelas que reside um dos encantos do filme: como dito, ele te faz rir, e muito. Mas te emociona com a mesma força. Cada nova ação, cada nova cena te faz gargalhar, soltar lágrimas espontâneas com um gesto ou uma frase dita pelos personagens. Momentos como a apresentação da vida do casal Carl & Ellie, até a morte da personagem, logo nos primeiros dez minutos, e o momento em que a casa alada faz o seu primeiro vôo entram, fácil, fácil, entre as cenas mais memoráveis dos filmes de animação até hoje – e me arrepiam só de pensar nelas enquanto escrevo esse texto.
De essência bastante simples, “Up” é uma pequena celebração à coragem de mudar e de buscar o que falta em sua vida – mesmo que aos trancos e barrancos, no caso, literalmente! -, cheia de metáforas delicadas e dona de uma alma autêntica. Tudo é absurdamente vivo e colorido no universo do filme, e não se espante nem um pouco se ele trouxer de volta à você alguma sensação antiga que não era sentida a muito tempo, ou acabar abrindo seus olhos para o brilho existente em coisas pequenas, que nós podemos provar sozinhos ou em companhia de outras pessoas. Você vai torcer por esses incríveis personagens como se eles fossem pessoas reais: de vez em quando, parece mesmo que são. Ao chegar no final da exibição, você pensa – mesmo que por alguns instantes – que as coisas podem funcionar de forma tão mágica quanto num desenho animado.
Up! concorre em cinco categorias no Oscar 2010: “Melhor Filme de Animação”, “Melhor Filme” – feito inusitado para uma película de animação, considerando que um representante da categoria só havia concorrido ao prêmio principal uma vez, em 1991, com “A Bela e a Fera” – “Melhor Edição de Som”, “Melhor Trilha Sonora Original” (incrível e certeira, por sinal) e “Melhor Roteiro Original”. O MIOLAOTEAM está na torcida!
Up, Pete Doctor e Bob Peterson, 2009.
Up – Altas Aventuras. Com vozes de: Edward Asner, Christopher Plummer, Jordan Nagai, Bob Peterson, Delroy Lindo, Jerome Ranft, John Ratzeberger, David Kayer