Quando o Miolão ainda estava no comecinho, fizemos um post apresentando Miranda July, uma artista que não se limita somente a uma área de atuação: como dito anteriormente, ela escreve, atua, dança e cria performances multimídias – tudo com uma sensibilidade diferente do habitual. Miranda fascina contando histórias agridoces e incisivas sobre nosso cotidiano, apresentando personagens e tramas densas e realistas, além de mostrar seu ponto de vista sobre diversas facetas do comportamento humano. Na ocasião, citamos dois de seus trabalhos – talvez os mais conhecidos: o longa “Eu, Você e Todos Nós”, filme roteirizado pela própria e “É Claro que Você Sabe do Que Estou Falando”, sensacional livro de contos de sua autoria que traz seu estilo por vezes sarcástico e cruel, mas sempre terno de narrar as experiências que podem acontecer à qualquer um.
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Clarice Lispector

“Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim.”
Clarice Lispector.
Dizem que é difícil definir alguém com palavras. Mais do que difícil: é perigoso. E a missão se torna ainda mais arriscada quando esse alguém é Clarice Lispector.
Tida por muitos como a maior escritora brasileira de todos os tempos (o curioso é que ela nasceu na Ucrânia e veio pra cá ainda neném), Clarice Lispector foi uma mulher à frente de seu tempo. Corajosa, dona de um espírito único e vívido, Clarice conseguiu imprimir em seus livros sua personalidade como poucos foram capazes. Dona de um estilo singular, ela não teve medo de se mostrar. Suas linhas mais pareciam uma extensão de si. Toda palavra, toda vírgula, todo ponto, iam de encontro aos questionamentos mais íntimos e sinceros que todos passam ao menos uma vez na vida, mas que a maioria não sabe como exprimir.
A descrição do cotidiano e de toda sua banalidade ganhava contornos únicos em suas mãos. Ela não descrevia apenas cenas concretas. Ela conseguia colocar no papel sensações e sentimentos que aconteciam por dentro. Ir a feira, passear pelo jardim, se arrumar para o esposo, andar de ônibus, ler uma notícia chocante no jornal. Talvez o mais impressionante em sua obra é a sensação de que qualquer coisa possa ser o estopim para uma revolução. Uma revolução interna e devastadora que só a solidão poderia construir.
Essa introspecção e esse domínio da linguagem (há quem diga que Clarice consegue escrever poesia em prosa), fizeram com que seu acervo fosse descoberto e redescoberto pelas gerações posteriores a sua. Mesmo após 32 anos de sua morte, os questionamentos e certezas que ela colocava no papel ainda fazem sentido. E foi essa intensidade toda que fez com que Clarice, mesmo após tanto tempo, continuasse relevante não só no que se refere a literatura, mas também ao que se refere à vida.
Leia aqui Uma Galinha, conto presente no belíssimo Laços de Família, da Editora Rocco.
É, Clarice se foi há exatos 32 anos. E ler seus textos só traz saudade. Porque como diria a própria…
“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.”
Clarice Lispector.
10/12/1920 – 09/12/1977
#DeveLer: A Hora da Estrela, O Primeiro Beijo, Laços de Família e A Paixão Segundo G.H.
A Redoma de Vidro, Sylvia Plath
“A Redoma de Vidro” foi lançado em 1963 e é o único livro narrativo da autora Sylvia Plath, que publicou diversas coletâneas de poemas durante sua vida. É, sem dúvida, uma obra bastante autobiográfica – compreendê-la é, também, entender um pouco do universo interior de Plath, uma mulher intrigante e que expunha conflitos pessoais que, muitas mulheres naquela época sentiam-se obrigadas a conter.
Sylvia Plath nasceu em Massachusetts e sempre foi uma pessoa intrigante. Desde jovem, possuia uma personalidade incrivelmente inconstante, com crises nervosas freqüentes, que não cessariam até seu suicídio, aos trinta anos. Por outro lado, sempre teve um enorme talento para a escrita. Ganhou inúmeros prêmios estudantis devido aos seus dotes precoces e aprendeu a canalizar as diversas agruras que passava em sua vida na literatura. Vários elementos de seu cotidiano, como a morte prematura do pai, a repressão imposta pela sociedade na década de 50/60, a frustração com o modelo do “homem padrão” da época, com o trabalho, com sua própria pessoa e diversas outras inquietações.




















