Estava aqui pensando no quanto deve ter sido difícil bolar uma sinopse convincente e honesta para O Palhaço. Escrever em poucas linhas a respeito do que se trata a produção é uma tarefa complexa. Não que o mote do filme seja complicado (ele não é). A história, na verdade, é bastante simples. Complicado mesmo é tentar objetivar sensações que transbordam subjetividade.
Contando a história de uma trupe circense que viaja pelo interior de Minas Gerais, o segundo longa dirigido por Selton Mello, que também assina o roteiro, consegue, em 90 minutos, arrancar risos e lágrimas do espectador ao retratar situações bucólicas e “exóticas”. Esmiuçando com destreza a vida na estrada e o mundo do circo, Selton, que além de comandar o filme também o estrela, compõe um retrato em constante movimento de figuras estranhas e palhaços tristes.
Seu personagem, protagonista do longa, é um oximoro ambulante: “obrigado” a fazer graça junto de seu pai (Paulo José) durante os espetáculos, ele vive uma vida regada de melancolia. Sem ter tempo de pensar sobre seu estado de espírito – além de palhaço ele administra o circo -, e sem saber ao certo se deseja passar sua vida como palhaço, ele vai, progressivamente, se entregando a um estado de inércia e tristeza. O curioso é que, mesmo profundamente triste, ele continua sendo, aos olhos dos outros, engraçado. Compondo seu palhaço com uma notável sensibilidade, Selton Mello dispensa muletas e investe em uma caracterização sóbria. O que o transforma num quase-autista é seu olhar parado, sua fala acelerada – que nos momentos de ansiedade parece quase cantada – e sua postura sempre displicente. É como se as frustrações acumuladas ao longo da vida estivessem presentes nos mínimos detalhes. A escolha de Selton por usar, quando mostra o personagem, planos estáticos, amplificam a sensação de inadequação do personagem ao passo que constrói planos elegantes.




















