
“Cinema Paradiso” é um daqueles filmes que a cada segundo de exibição nos faz entender a razão pelo qual é considerado um clássico, que dispõe todos os atributos que fazem jus a um dos filmes mais cultuados do cinema moderno. Essa adoração não é injusta: dirigido por Giuseppe Tornatore e lançado em 1989, o filme conta uma história permeada de homenagens à sétima arte e retrata de forma extremamente tocante os caminhos diversos e inesperados que uma pessoa pode percorrer em sua vida.
O protagonista da película é Salvatore, apelidado de Totó, um homem que retorna a sua cidade natal para o velório de um grande amigo, Alfredo – projetista do primeiro cinema do lugar, que apresentou o ofício para nosso herói quando ele ainda era muito jovem. A infância de Totó não foi sempre as mil maravilhas: criado pela mãe, uma mulher ressentida pelo desaparecimento do marido durante a primeira guerra e pela suposta “doença” que sua outra filha carrega, encontrou no cinema o escape perfeito para o meio opressor em que vivia e, quando retorna anos depois ao lugar em que nasceu, revisita – tanto em sua memória quanto em películas antigas feitas por ele e conservadas pelo seu mentor falecido – memórias que aconteceram naquele local.
“Cinema Paradiso” oferece ao público uma viagem pelas recordações de Salvatore, que são mostradas, desde o início, de forma incrivelmente cativante. Giuseppe, o diretor, prova que não precisa de mais que uma história sincera e – quase – comum como essa para emocionar: o mais legal do filme é que seu encanto reside nas coisas simples que são mostradas, como as passagens da vida de Toto que poderiam ser de qualquer pessoa. O primeiro amor, a convivência com seus vizinhos e colegas de escola, a vida em família, as ambições que se mostram maiores do que a pequena vila em que ele mora pode comportar…
Tudo seria emocionante por si só, e a presença de alguns elementos transformadores na história contribuem mais ainda: a amizade, a nostalgia e a paixão pelo cinema que muda a existência dos personagens da trama. A relação entre Toto e Alfredo – os embates iniciais que vão dando lugar a diálogos fraternais conquistam o público logo nos primeiros 30 minutos. É impossível controlar os sorrisos com as desajeitadas demonstrações de carinho do projetista e com a insolência pueril de Toto – interpretados magistralmente por Philippe Noiret e por um dos artistas mirins – que hoje não é mais mirim (?) – mais carismáticos já vistos, Salvatore Cascio.

Cenas do filme "Cinema Paradiso"/ foto do diretor Giuseppe Tornatore (abaixo, à direita).
As cenas que narram a vida de Salvatore mais velho contrastam com aquelas que mostram sua juventude. Seu período de adulto, apesar de todas as facilidades cabíveis a ele, parece despido de grande parte da vivacidade que seu cotidiano possuía quando ainda era um jovem sonhador e apaixonado. De certa forma, a morte de Alfredo é o que lhe traz de volta aos dias em que os sentimentos, as descobertas e sensações eram mais intensas e ele mesmo não sabia. De volta a sua cidade, percebe o quanto aquele simpático senhor que lhe guardava pedaços de rolos de filmes antigos e em outro momento jurava não querer vê-lo mais foi importante para seu crescimento – e o quanto ele mantém de seu amigo dentro de si próprio.
Outra coisa que constata é que nada mais naquele lugar é igual ao que era antes. Tudo é apenas um resquício do que foi um dia, até mesmo o célebre “Cinema Paradiso” – que agora, encontra-se prestes a ser demolido. A essência das coisas, porém, permanece inalterada e, para Toto, ainda resta uma última chance de visitar aquele velho prédio que foi tão importante a ele. Vivos, de verdade, só as suas experiências de vida e o cinema, que surge mais uma vez para ele como um consolo para a perda de coisas que não voltam mais.
Além do retrato de uma vida, “Cinema Paradiso” fala sobre o poder transformador das produções cinematográficas, sobre o cinema de outrora e sobre a magia dessa arte, que atravessa gerações e, aqui, recebe a atenção e importância que lhe cabe. Giuseppe Tornatore homenageia cineastas, produtores, estúdios, atores e atrizes que aprecia, fascinando o novo público que entende a importância dos tempos áureos do cinema e seu poder envolvente e também os cinéfilos clássicos, que vivenciaram essa época. Quem nunca desejou, no fim das contas, que sua vida fosse – ao menos um pouco – semelhante a ficção? O diretor italiano fez, nesse filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1990 e de diversos outros prêmios, entre eles o Globo de Ouro no mesmo ano, uma das celebrações definitivas a felicidade e a imortalidade do cinema.