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Katy Perry – Teenage Dream

Existem discos que são lançados com um prazo de validade invisível estampado. Álbuns de fácil digestão, que emplacarão alguns hits nos meses que seguem seu lançamento, gravados por artistas algumas vezes realmente talentosos e outras vezes não. Depois de nos entreterem por um período de tempo, esses trabalhos são esquecidos, datados, limitados a uma única temporada – bem como seus donos, em certos casos.

Katy Perry, bem antes de estourar com o hit “I Kissed a Girl”, já percorria os caminhos da indústria fonográfica de forma discreta. Antes conhecida pela alcunha de Katy Hudson, a mocinha já havia gravado um disco de canções gospel e liberado uma ou outra musica aqui ou ali, como aquela que me fez conhecê-la, a adorável “Simple”, inserida na trilha sonora do subestimado “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”. Um bom tempo depois, lançou “One of The Boys”, produzido por nomes diversos, como Dr. Luke (Britney Spears, Ke$ha) e Glen Ballard (Alanis Morissette, Lissie) virando rainha das FMs e até um MTV Unplugged.

Foi lançado essa semana (depois de ter vazado na net, por sinal)  “Teenage Dream”, o sucessor de seu “debut em larga escala”, que, como todo segundo disco de inéditas que se preze, prova algumas coisas na carreira de um artista. Katy encontra-se naquele nicho de artistas do primeiro parágrafo, cujo trabalho é consumido facilmente. Espirituosa e esperta, ela arrisca em certos momentos, criando, além de animados convites à festas e momentos de descontração, algumas pequenas canções confessionais e mais íntimas onde mostra estar acima de algumas concorrentes. O novo compacto prova que Katy equilibra bem seu lado comercial e o outro, mais livre, inclinado a criações mais pessoais. Mas ainda falta alguma coisa.

A primeira metade do álbum é cheia de sucessos em potencial – músicas com gigantesco potencial para tornarem-se singles e serem executadas à exaustão: os dois singles lançados até o momento, por exemplo, estão entre as seis faixas iniciais. “California Gurls”, parceria com Snoop Dogg, já está tocando na rádio há um bom tempo e batendo recordes nas paradas de diversos países. Tido por alguns como uma cópia de “Tik Tok”, da sua colega Ke$ha, é uma homenagem às garotas da Califórnia, terra natal da cantora. Com o mesmo espírito celebrativo da faixa com a qual é comparada, é outro grande hit do ano: Katy personifica as características das moças de sua terra transitando entre a malícia e a ingenuidade.

“Teenage Dream”, a segunda música de trabalho, já está mostrando presença: mais doce do que açúcar, tem tudo o que precisa para tornar-se a canção romântica (e saturada) da temporada. É realmente uma graça, mas que surge somente grudenta e não inovadora. Ganhou um clipe utópico, que reforça a idéia de amor perfeito que a letra passa. Katy aparece nos braços do modelo Josh Kloss na praia, na cama, na estrada e em todo lugar, divertindo-se como se não houvesse amanhã ao seu lado e junto de diversas outras pessoas, num ar de bagunça controlada. Todos lindos, afim de uma agitação e com cara de que não peidam. Veja abaixo:

“Last Friday Night” é daquelas músicas que tem o poder de te trazer sorrisos legítimos quando você escuta. O retrato de uma sexta-feira incerta que ficou marcada na memória da cantora é perfeito para ser ouvido antes de uma noite que promete, típica canção para esvaziar a cabeça e sentir com o corpo, de preferência em grupo e com liberdade pra dançar. É como uma “I Gotta Feeling”, não por semelhança, mas pelas sensações que te desperta. Destaque para instrumentos de sopro frenéticos que surgem de surpresa e os histéricos gritinhos de “T.G.I.F” – em inglês, “Thanks God It’s Friday!”. Irresistível.

“Firework” é apoteótica e esperançosa. Apesar de clichê – com direito a frases batidas como “After a hurricane comes a rainbow”, consegue soar sincera e eficaz em sua missão de elevar o astral do ouvinte. Já tá valendo. “Peacock” é uma faixa nada sutil sobre a vontade de Perry em ver o…er, “pavão” (!) do rapaz por quem está afim. É o momento debochado do álbum, que a gente também não vai levar muito à sério. Lembra muito a clássica “Mickey”, de Toni Basil, hino farofa e com ares “cheerleader” dos anos 80.

A partir daí, Katy arrisca reflexões sobre sua própria condição, experiências passadas e aspectos da vida amorosa de modo mais particular. “Circle The Drain” é ácida ao tratar de um relacionamento onde um dos parceiros tem tendências evidentes à auto-destruição: “I’m not sticking around to watch you go down”, canta, categorica. “The One That Got Away” remete à algum capítulo de sua adolescência, algum ponto onde não retribuiu os sentimentos de um rapaz – o seu Johnny Cash particular – e se arrependeu amargamente depois. Parece tão à vontade contando as peculiaridades da relação, permeada por canções do Radiohead que você se sente familiarizado com a história mesmo sem nunca ter ouvido antes. Cativante.

“E.T.” narra a paixão da moça por um homem que parece um alienígena (não fisicamente, tomara!) e faz com que ela sinta coisas que nunca havia vivenciado antes. O conflito presente na letra (could you be the devil/could you be an angel?) não apresenta nada novo, mas a música é envolvente e tem sua força.  A dramática “What Am I Living For?”,  que traz vocais rasgados e um questionamento intenso sobre pressões e cargas difíceis de serem suportadas.

“Pearl” e “Hummingbird Heartbeat” formam um interessante contraponto: numa, Katy repele um parceiro que a fez fechar-se em seu próprio mundo, enquanto na segunda, ela fala sobre um amante que expande sua percepção sobre si própria, energias do amor (?) e sobre a química existente entre os dois. Sobra para a simples e bela “Not Like The Movies” fechar a tracklist – uma música sobre a eterna busca por uma relação amorosa satisfatória, que parece nunca surgir. É uma das melhores faixas do disco e merece ser saboreada com atenção.

“Teenage Dream” fortalece ainda mais o nome de Katy Perry nos charts, mas não representa nenhuma nova tentativa em sua carreira. Apesar disso, ela consegue imprimir sua estampa ao que lança. Nada essencial ou com potencial pra durar muito mais tempo do que uma estação, porém. Não que seja um problema: o disco pode ser efêmero como um sonho adolescente ou derreter tão rápido quanto algodão doce na boca, mas quem disse que isso não é, de vez em quando bom?

Lissie canta Bad Romance

Primeiro foi o Alphabeat fazendo um puta cover, aí tivemos Cláudia Leitte nos matando de vergonha, depois teve Hayley Williams , vocalista do Paramore, torturando-nos com a introdução da música e quaaaase acertando no final… agora temos Lissie matando a pau e apresentando simplesmente o melhor cover de Bad Romance:

A garota loira que começou a tocar depois de ser expulsa do colégio se apropria da canção de GaGa de tal forma que por um breve momento a gente até esquece da irresistível embalagem pop de GaGa.

Se você gostou, vale a pena conhecer o trabalho de Lissie. Até agora ela possui apenas 2 EPs e uma porção de faixas soltas por aí. A música dela é uma mistura consciente de folk, trip hop, rock e country. Escute abaixo On My Chest, música presente em Lisse, seu primeiro EP, lançado ano passado:

Curtiu? Saiba que Lissie está preparando seu primeiro álbum e a produção será de ninguém menos que Glen Ballard, o responsável por Jagged Little Pill, de Alanis Morissette e Slow Motion Addict, de Carina Round.

Alguém aí duvida que a menina promete?

#DiscosEssenciais: Alanis Morissette, Jagged Little Pill

Capa de Jagged Little Pill

Em meados dos anos 90 surgia uma artista que iria se tornar um dos maiores nomes da música de todos os tempos. Alanis Morissette ainda era, na ocasião, uma simples cantora de “dance-pop” – promissora, mas nada inovadora. Possuia dois álbuns lançados apenas no Canadá (“Alanis”, de 1991 e “Now Is The Time”, de 1992) que fizeram relativo sucesso por lá. Durante sua adolescência, a cantora e seus pais correram atrás de agentes que estivessem dispostos à dar uma chance a ela, que se apresentava em shows de talento, fazia pontas em séries de TV e utilizava o que ganhava para gravar demos e mostrar seu trabalho, que nem sempre era visto. Foi um mérito grande ter gravado os seus primeiros disquinhos, em parceria com profissionais que conhecera bem nova e que a conduziram por um certo tempo, gerando considerável impacto na jovem artista.

Alanis, por motivos como esses, aprendeu durante todos esses anos de “iniciação” na indústria fonográfica e no mundo artístico, um pouco sobre o universo em que estava entrando. Pôde sentir a intensa pressão dos empresários e o peso de ser uma artista subjugada, por exemplo, mas também a expectativa de poder mostrar seu trabalho para um público que a considerava uma futura revelação. Ao mesmo tempo, enfrentava os “demônios” pessoais típicos de alguém jovem, que ganhavam força devido a essas situações que aconteciam em sua vida.

Ninguém podia, porém, adivinhar o estrondo que seu nome iria gerar dali a poucos anos e que ela faria um dos álbuns femininos mais importantes da história.

Alanis e seu permanente assassino no começo da carreira e em foto da era "JLP".

Alanis e seu permanente assassino no começo da carreira e em foto da era "JLP".

Depois do término do contrato com a MCA Records, que havia lançado seus dois primeiros álbuns, Alanis iria se mudar para Los Angeles, buscando novas colaborações e formas de continuar trabalhando com música. Foi lá que conheceu o produtor Glen Ballard, figura essencial na história artística da cantora e que viria a produzir o disco citado nesse post.

A empatia entre ambos foi imediata: Glen, experiente produtor de discos que já havia trabalhado com artistas conceituados, como Michael Jackson, com o passar do tempo viria a explorar outras vertentes sonoras da cantora e, segundo a própria, iria incentivá-la a expor suas verdadeiras emoções e sentimentos. Ele, sentia-se fascinado pela energia crua e a sinceridade contidas naquela jovem moça. Juntos, comporiam os arranjos que conquistariam as paradas mundiais. Alanis escreveria hinos de libertação própria que fariam pessoas no mundo todo se identificarem com aquela garota astuta e cheia de coisas para dizer.

O processo de gravação foi realizado de forma bastante caseira: mais da metade do CD foi gravada em um estúdio na casa de Glen, e Alanis contou com suportes de peso na banda de apoio, como Flea e Dave Navarro do Red Hot Chilli Peppers. Em 1995, Alanis conseguiria um contrato com a gravadora Maverick, administrada por Madonna, e também com Guy Oseary, empresário da rainha do pop. E assim, ainda nesse ano, o seu “Jagged Little Pill” seria lançado. Com ele, o diário de Alanis estaria finalmente aberto para o mundo todo.

Ele se tornaria o maior êxito de sua carreira inteira. Seu sucesso começou de forma tímida, com a execução de suas faixas em alguns clubes de Los Angeles. Foi questão de tempo para que o primeiro single, “You Ougtha Know” estourasse nas rádios e nos canais de música. A agressividade expressa na letra, onde Alanis bota no devido lugar um ex-namorado que havia trocado-a por outra era uma bela amostra do trabalho confessional oferecido pela cantora ao longo das treze faixas do seu novo disco. O álbum traria ainda outros hits mundiais como “Ironic”, “You Learn”, “Head Over Feet” e “Hand in My Pocket”. Seu trabalho foi comparado ao de grandes cantoras que já eram famosas, como Joni Mitchell, Patti Smith e Carole King. Todas elas, famosas por oferecem canções consistentes e de conteúdo.

Alanis_Miolao

1. Alanis, em ensaio de divulgação de JLP. 2. Foto tirada em um dos shows de sua turnê "The Club Tour" e 3. Capa do JLP Acoustic

“JLP” vendeu 30 milhões de cópias mundialmente e tornou-se o CD mais vendido por uma artista estreante em todos os tempos, e o segundo mais vendido por uma cantora, atrás apenas de Shania Twain. Ela seria indicada à diversos Juno Awards, Grammy Awards e prêmios variados. Público e mídia estavam finalmente rendidos ao talento de Morissette.

Alanis, naquela década, foi uma das maiores representantes de um nicho de cantoras que se destacavam por não serem apenas um rostinho bonito e que gostariam de compartilhar, sem rodeios, seus pontos de vista quanto às relações humanas, o cotidiano atual e diversos temas polêmicos. Sua exposição na mídia impulsionou diversas outras cantoras que possuíam uma vertente semelhante a dela e que também chamariam a atenção – talvez não tanto quanto a própria Alanis, porém.

“Jagged Little Pill” é o retrato de uma jovem passando para a vida adulta. Suas canções são maduras e sagazes. Ouvi-lo é como entrar num turbilhão de emoções que se estende por pouco mais de 57 minutos. É raivoso, bem humorado e melancólico, incisivo e muito real. É o primeiro passo de Alanis para “exorcizar” seus demônios, citados no começo do texto – tarefa  que prossegue até os dias de hoje, a cada novo álbum. Em “JLP”, Alanis chama todos os seus fãs e ouvintes para conhecer as diversas caras que eles possuem, mas também para compartilhar o fascínio que tem pela sua própria posição.

A turnê do disco foi documentada no DVD “Jagged Little Pill Live”, que ganhou o Grammy de “Melhor Vídeo Musical – Longa Metragem” em 1997. Depois de terminada a turnê, Alanis entraria numa fase em que se encontraria enjoada da fama e da gigantesca exposição. Ela procuraria então, se “exilar” na Índia, onde entraria no processo de produção de seu quarto disco, “Supposed Former Infatuation Junkie”, que também seria um sucesso, mas menor do que o álbum anterior.

 “Jagged Little Pill” é ainda hoje cultuado e foi até mesmo relançado pela própria Alanis em versão acústica em 2005, dez anos depois. As novas roupagens, apesar de ótimas, não possuem o encanto e a essência daquelas gravadas há mais de uma década e que ainda hoje, encantam diversas pessoas que as conhecem pela primeira vez ou que sentem prazer em revisitá-las. Sem dúvida, essenciais.

 

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