
Quando li “Os Leões de Bagdá” há algumas semanas, não imaginava que uma hora depois eu estaria nocauteado por aquela HQ que superou minhas expectativas e se mostrou bastante atordoante. Eu tentei encontrar outra forma mais apropriada para definir a experiência breve, porém intensa, que é ler essa criação de Brian K. Vaughan e Niko Henrichon, mas não encontrei: realmente te desnorteia como um soco.
Muitas obras atuais retratam conflitos políticos, étnicos, territoriais e de diversos outros tipos de forma crítica, mordaz, ágil e bem sacada, na maioria das vezes utilizando como plano de fundo acontecimentos reais. “Os Leões de Bagdá” é mais uma dessas, e se destaca por um fator especial: não se trata de uma autobiografia, ou de uma história narrada e esmiuçada por um personagem humano, com as características cabíveis a sua espécie. Os protagonistas da trama, como sugere o título, são quatro felinos arredios e condicionados a viverem suas vidas num zoológico em Bagdá.
A questão maior é que, num lugar que vive à mercê de confrontos gigantescos, esperar uma vida tranqüila não faz muito sentido – nem se você for um animal enjaulado. Num dia aparentemente normal, o local é bombardeado pelas frotas norte-americanas e o quarteto, antes ironicamente protegido pelos limites que lhes eram impostos, se depara com o caos de uma cidade destruída e os impasses que surgem dali em diante.
A história, inspirada num caso real de 2003, quando leões fugiram de um zoo após uma série de bombardeios no auge da ocupação do Iraque pelo exército dos EUA, simplesmente vai acontecendo e te deixa vidrado: você não sabe o que poderá acontecer aos personagens principais quando vira a página. Brian K. Vaughan, roteirista de quadrinhos que já trabalhou para a Marvel e colaborou para criar as diversas reviravoltas da série LOST, consegue transmitir com muita facilidade a sensação de inconstância, paranóia e perigo presenciada pelos “heróis”.
Através da ótica de seres não-humanos, Vaughan consegue discutir diversos conceitos procurados em nossas vidas e nem sempre alcançados, mostrando o quanto eles são essenciais à existência: a liberdade é uma delas. Mesmo quando pensam estar livres de verdade, os leões confrontam diversas regras que surgem com o cotidiano novo e brutal que surge diante deles. Para os mesmos, pouco importa o cerne de todos esses combates do homem; eles possuem seus próprios embates. Porém, são semelhantes aos nossos. Dá pra comparar e imaginar que o homem também vive em sua própria selva, sendo constantemente devorado e aprendendo a se alimentar de coisas inusitadas quando lhes falta comida – situação que remete a uma das passagens da graphic novel, quando o bando questiona se deve comer a carne de um humano encontrado pelo caminho ou não. Em maior ou menor escala, somos iguais a esses animais, e buscamos seguir adiante em meios insalubres.
Não dá pra não comentar dos desenhos criados por Niko Henrichon, que já desenhou, entre várias obras de peso, historietas da antologia Sandman, de Neil Gaiman: são a primeira coisa que salta aos olhos. Tudo tão bem desenhado que, durante a leitura, você pára diversas vezes e fica olhando pra aquilo tudo, quase como criança mesmo, mas reparando em outros pontos: “olha essas cores! uau, que expressões fantásticas! olha essa paisagem, PQP” e afins. Meio bobo dizer isso, mas você vai ler e ver que é desse jeito mesmo. E assim como Vaughan, Niko consegue transitar da beleza ao choque em um segundo, só que com os seus traços.
“Os Leões de Bagdá” é uma reflexão sobre como o homem pode obedecer aos seus instintos mais animalescos de forma quase imperceptível e como algumas coisas, como as guerras que vemos nos noticiários, não possuem sentido algum se comparado à algumas questões e necessidades que carregamos dentro de nós mesmos, mas que condizem ao coletivo. Te enche de adrenalina e te faz parar por pelo menos um cinco minutos depois de ler, pensando: “uaaaau…”. Vai ser uma porrada, mas irá gostar. Recomendamos.
OS LEÕES DE BAGDÁ – Pride of Baghdad
Autor: Vaughan, Brian K; Henrichon, Niko.
Tradutor: Trindade, Levi.
Editora: Panini Comics
Ano de lançamento: 2003 (EUA) – 2008 (Brasil)
(Leitura indicada pelo fidiquenga do @blackwill, sempre com uma ótima dica de graphic novel pra animar o dia.
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