
Escolhemos uma obra um pouco diferente para a indicação de leitura da vez: a primeira HQ que o Miolão apresenta é um dos maiores sucessos desse mercado nos últimos anos e prova que atualmente, quadrinhos podem ser não somente deslumbrantes aos olhos ou um bom passatempo, mas também registros eficazes sobre nossa realidade. Tão emocionantes e essenciais quanto qualquer obra literária.
“Persépolis” foi lançado originalmente na França, em 2000. Escrito e lindamente ilustrado por Marjane Satrapi, o livro - publicado em quatro volumes e também edição completa aqui e lá fora – é uma autobiografia em quadrinhos; portanto, para começar a falar sobre a obra, comentaremos antes sobre a criadora. Nascida no Irã, a autora teve contato com o contexto político e ideológico de seu país desde muito nova: bisneta de um imperador, amadureceu sob a influência de pais liberais e politicamente engajados, tornando-se uma garota rebelde e contestadora.
Desde cedo, presenciou também a carnificina promovida durante os confrontos pelo poder que aconteciam no território. Foi enviada para a Europa pelos pais aos 14 anos, que acreditavam que essa era a atitude mais sensata se quisessem que sua filha tivesse uma educação mais “liberta” de dogmas e tabus e do risco dos confrontos entre Irã e Iraque. Lá, presenciou choques culturais, embarcou numa viagem de conhecimento próprio e exterior, até que retornou já mais velha para sua terra natal, onde cursaria belas-artes.
Uma trajetória tão atribulada dessas parece mesmo acontecer para ser posteriormente contada. A saga real de Marjane apresenta elementos da história de qualquer pessoa que reside no Oriente Médio, e que são conhecidos por diversas pessoas ao redor do mundo. Se o contexto político – tido por alguns como enfadonho – fez com que você virasse o nariz para a trama, pode pensar de novo.

“Persépolis” é uma obra contestadora: ela esmiúça o fanatismo religioso, o poder cego que os povos almejam e outros fatores pela ótica da escritora, que descreve tudo com detalhes que só alguém que já esteve no “olho do furacão” poderia contar. Tudo está retratado lá: sua infância, quando a revolução xiita estava no ápice, a opressão sofrida pelas classes, a tensão – violência constante e a incerteza de que você – ou as pessoas que ama – acordarão vivas no dia seguinte. É escancarado e direto, mas ainda assim sutil.
Satrapi, porém, sabe como dosar a forma como conta sobre os dois universos: aquele ao seu redor e outro, particular, dentro dela própria, que foi sendo moldado conforme vivenciava essas experiências, boas ou ruins. Além da guerra eminente, a escritora também narra seus dilemas particulares, que tornam sua realidade ainda mais familiar à todos. “Persépolis” possui também o “aroma” de memórias particulares e doces, como quando ela narra os reencontros familiares, suas paixões juvenis, conquistas ideológicas e gritos de liberdade, por menores que sejam – mesmo que se trate somente de um “transgressor” botton do Michael Jackson.
Dificil não torcer pela vida dos protagonistas e dos diversos personagens que vêm e vão – e não se emocionar ao constatar que aquilo todo foi (e é) real, e quantas Marjanes com menos sorte existem por aí…
Uma leitura que, quando chega ao fim, abre nossos olhos não somente para entender mais sobre uma parcela da história mundial que chega até nos como “flashes” nos telejornais – e que muitas vezes não damos tanta importância – mas que também conta como a determinação e a ânsia pela liberdade podem nos levar mais longe. Tão cheia de calor humano que é uma pena chegar na última página.
E ah, como concluir esse texto sem citar a adaptação para os cinemas, lançada em 2007? Sim! “Persépolis” virou um longa animado sensacional há alguns anos, adaptação fiel do que é mostrado na versão impressa, indicada ao Oscar de Melhor Longa Metragem de Animação em 2008 e vencedora do Prémio do Juri no Festival de Cannes. Recomendamos muito que você também procure pelo DVD e “devore” ambos: tanto a HQ quanto a película.
Que tal conferir o trailer?

PERSÉPOLIS.
Autora: Satrapi, Marjane.
Tradutor: Werneck, Paulo.
Editora: Companhia das Letras.
Ano de lançamento: 2004.