
Um bom filme de romance, ou mesmo uma comédia romântica, pra mim, deve ter um roteiro pé no chão. No geral, quando eu alugo um filme do gênero e constato que a trama é muito exagerada ou improvável de acontecer na realidade, é como um balde d’água fria. O chato é que muitos preferem histórias desse tipo, esquecendo que os relacionamentos amorosos podem ser melhor representados em histórias que não fogem tanto do alcance de nosso cotidiano, ou que sejam mais sutis.
Eu demorei um bom tempo pra assistir “2 Dias em Paris”, até que loquei o filme essa semana. A única coisa que eu sabia é que a Julie Delpy, de “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol” estava no elenco. Eu nem mesmo sabia que ela também era a roteirista, diretora e produtora executiva do longa – e além disso tudo, ela ainda preparou a trilha sonora e canta em uma das músicas. Ufa!
A história do filme, não foge, aparentemente, do lugar comum. Um casal, Marion e Jack, junto há dois anos, está em viagem pela Itália e decide, na volta para Nova Iorque, passar dois dias em Paris, lugar onde nasceu a personagem de Delpy. Lá, irão confrontar diversas situações que testarão o relacionamento dos dois. Soa como “Recém-Casados”, certo? Mas o resultado é bem diferente.
(No início, falei sobre filmes de “romance”, mas não sei se esse aqui se encaixa totalmente nessa categoria. Melhor: se for pra classificar, põe ele no “comédia/drama”.)
Assim como o filme da Brittany e do Ashton, existem os choques culturais e o lado estranho de estar numa cidade totalmente nova. Jack, que é americano, é quem mais sofre com os hábitos diferentes do povo francês e encontra aí uma justificativa para os enjôos e sensações ruins que ele diz sentir. Lá, ele conhece também a família de sua namorada, que até então nunca tinha visto pessoalmente: seus pais, um tanto quanto inconvenientes (pra dizer o mínimo) e sua irmã, que trabalha com crianças com necessidades especiais. Além deles, também conhece mais detalhes sobre o passado de Marion, inclusive sobre seus ex-namorados…
No meio dessa “bagunça”, você vai conhecendo mais sobre esses dois, até que se torna impossível dizer que a moça é apenas a “namorada sensível e um pouco presa ao seu próprio mundo” ou que ele seja só o “namorado hipocondríaco, ciumento e neurótico”. Isso te puxa pra dentro do filme. Por causa de uma cena ou outra, sua opinião sobre os dois personagens principais pode mudar completamente. Você os ama em um momento e odeia no próximo, assim como acontece na relação deles, que, por sinal, é bastante imprevisível, assim como as emoções que eles sentem.
Em dois dias, muita coisa acontece. Em alguns momentos, os dois parecem correr em direções opostas quanto ao que desejam, pensam, ou sentem. O amor entre os dois é, de fato, questionado muitas vezes, mas é bobagem discutir o significado desse sentimento no contexto em que ele é encontrado aqui quando, na verdade, ele está atado a diversas outras coisas que impedem que ele se desenvolva de verdade. Marion e Jack vão mostrando suas inseguranças, talvez não um para o outro, mas para o público – e percebemos que, identificando-se com os personagens ou não, a maioria de suas confusões pessoais são muito compreensíveis. Não dá pra prever o final, mas até a excelente última cena, poderemos acompanhar o caminho de erros e acertos desses dois até o entendimento – ou não! – num roteiro muito bem escrito, espirituoso, engraçado e emocionante na medida certa.
Adam Goldberg pode não ser nenhum galã, mas está muito charmoso em seu papel, assim como Julie Delpy, muito talentosa em todas as áreas que se arrisca e super carismática. Destaque para o elenco de apoio, com Marie Pilet e Albert Delpy como os pais da personagem Marion (e também da atriz Julie Delpy na vida real) e para Daniel Bruhl, ator que recentemente pôde ser visto em “Bastardos Inglórios”, e sua participação especial hilária e inusitada.
“2 Dias em Paris”, diferente de alguns clichês exagerados do gênero, acerta por perceber que, numa relação, não precisamos de acontecimentos drásticos para mudar o rumo das coisas. A mudança, inclusive, pode ser muito silenciosa. Tudo pode mudar – inclusive o amor – ao percebermos que não conhecemos nosso par como pensávamos antes, que erramos em atitudes que tomamos – mesmo pequenas – e também ao percebermos que, algumas vezes, não conhecemos bem nem a nós mesmos e que para salvar áreas de nossas vidas que parecem desabar, temos que nos mostrar por completo, sem vergonha de mazelas pessoais que de vez em quando, preferimos esconder.