
Onde Vivem Os Montros, o filme, é um dos projetos que mais tive vontade de ver na tela grande ano passado, ficando atrás apenas de Bastardos Inglórios e Foi Apenas Um Sonho. Quando soube que teria que esperar meses até ter a chance de assistir (o filme só estreou no Brasil na última sexta), fiquei meio desapontado, mas a vontade de ver não só continuou lá como foi crescendo com o tempo.
Há cerca de 20 dias passei pela Livraria Cultura e por curiosidade peguei o livro Onde Vivem Os Monstros, de Maurice Sendak, pra ler. Li a história em menos de 2 minutos e fiquei perplexo em como aquele material poderia ter virado filme. Na hora foi impossível conceber como um livro com apenas 9 frases daria um bom longa metragem. Se você não teve a chance de ler, eu explico. No clássico livro de 1963, um menino chamado Max é castigado depois de fazer malcriações e acaba ficando sem jantar. Do seu quarto, o garoto imagina um mundo selvagem, repleto de monstros, onde ele se torna rei.
O que eu não consegui imaginar na hora que li acabou se tornando real enquanto assistia: o livro, de 9 frases, tinha sim virado filme. E mais do que isso: um bom filme.
Nas mãos de Spike Jonze, cultuado diretor de Quero Ser John Malkovich e Adaptação, o argumento de Sendak ganhou contornos explosivos, sensíveis e enigmáticos. Assistir Onde Vivem Os Monstros é quase como entrar em uma Máquina do Tempo e regressar a uma época em que toda emoção era intensa e todo sentimento vivo.
Quando o garoto Max chega a terra dos Monstros e grita “Que comece a selvageria!” ele ordena o início não só da baderna mas também da liberação de seus sentimentos mais profundos. Nos monstros, ele percebe pouco a pouco vestígios de sua personalidade mimada, egocêntrica e instável. Ao mesmo tempo em que ele nota seus defeitos ele não se reconhece nas figuras. Um bom exemplo disso é o ciúme que Carol, o monstro, sente por KW; obviamente uma reprodução de todo sentimento de Max por sua mãe, da mesma maneira que outras situações refletem exatamente o que ele passa.
Rasteiro e aterrador como só o universo infantil pode ser, Max se vê em situações limites, indo dos risos as lágrimas de uma cena pra outra. A grosso modo, o filme é o que Max vê e, principalmente, sente. Nós somos Max. A câmera trêmula de Jonze aliada à vitalidade do estreante Max Records são admiráveis, assim como a trilha sonora composta por Karen O and the Kids, que impulsiona o filme e impõe ritmo as cenas de ação (que não são poucas), criando uma atmosfera densa e doce durante todo o tempo.
Como se não bastasse, o elenco ainda conta com a sempre ótima Catherine Keener e Mark Ruffalo. No time dos monstros, a dublagem ficou a cargo de gente do mais alto nível, como por James Gandolfini, Forest Whitaker, Catherine O’Hara, Paul Dano, Chris Cooper e Lauren Abrose.
Outro ponto que merece destaque é a questão estética, que salta aos olhos desde a primeira cena. O visual do filme e os monstros são um show a parte: os bonecos que foram trabalhados em computação gráfica transmitem um realismo de emoções completamente crível, despertando antipatia e carinho na mesma medida. Um belo exemplo do uso da tecnologia a favor da arte.
Como o próprio Spike Jonze declarou, o filme é sobre compreender o mundo e as pessoas a nossa volta. Crescer. E essa mensagem fica clara no final, porque assim como Max, a gente cresce um pouquinho quando retorna ao mundo real. Belo filme.
Where The Wild Things Are, Spike Jonze, 2009.
Onde Vivem Os Monstros. Com: Max Records, Catherine Keener, Mark Ruffalo, James Gandolfini, Lauren Ambrose, Michael Berry Jr., Forest Whitaker, Catherine O’Hara, Chris Cooper e Paul Dano.