Provavelmente essa vai ser a última Mixtape que você vai ver aqui no Miolão nesse ano de 2011.
Ao contrário dos outros disquinhos que disponibilizamos ao longo de 2011, a Miolão Mixtape 23 não tem um tema “explícito”. Bem humorada (prestem atenção na primeira faixa!), bastante bonitinha e muito muito muito divertida, a seleção trás 11 musiquinhas distintas que juntas servem como trilha sonora para tardes de Sol.
Aliás, se é para designar uma palavra, acho que ingênua é a que cabe melhor: pura tanto nas letras quanto nas melodias, as gravações são, na pior das hipóteses, cativantes.
Pro Dia Nascer Feliz, nossa vigésima mixtape, tem um conceito bem simples – e até autoexplicativo -: músicas que são músicas felizes.
Ao contrário de nosso último disquinho, que era uma bagunça de faixas e gêneros, esse aqui mantém certa coesão e – pasmem! -, certo sentindo. Começando de um jeito bem suave, ele vai ganhando forma aos pouquinhos e ficando mais “animado” a cada faixa. Lá pelo finzinho, a animação vira outra coisa. Meu conselho é: escutem.
Se “Made of Bricks”, debut da inglesinha Kate Nash, não é um disco essencial – ao contrário do que sugere o nome da seção – possui muitos atributos que fazem sua audição ser, no mínimo, bastante prazerosa. Lançado em 2007, o álbum é repleto de vivacidade, espontaneidade e uma deliciosa euforia adolescente; hoje, no aniversário da cantora, mostraremos outras várias razões pelas quais você deve ouvi-lo. Continue lendo →
Quando lembramos de música latina, não dá pra deixar de pensar, de imediato, na exuberância de nomes como Shakira ou Gloria Estefan, no tom irreverente e safadinho de Calle 13 ou na sobriedade adulta de Jorge Drexler. Existe, porém, uma nova leva de músicos da cena independente que, explorando seu idioma natal, não possui toda a pompa dos nomes acima, mas nos oferece gravações honestas, e que despidas de grande produção, compensam em conteúdo e forma, e expõem as diversas influências que seus criadores absorvem.
O tema que guia nossa seleção de músicas para a Mixtape de hoje foi sugerido pelo leitor César Farias, o @f__franca: o rapaz, que nos mandou uma mensagem sugerindo o Music Monday de Melody Gardot, aprecia vocais femininos e propôs no mesmo e-mail a escolha de faixas que mostrassem toda a meiguice e sensibilidade que só as mulheres conseguem ter.
Apaixonado por diversas cantoras e bandas lideradas por moças, o Miolaoteam sofreu pra selecionar as músicas que entrariam no CD, com essa temática super abrangente. Compartilhamos com vocês a tracklist da semana, que conta inclusive com algumas canções indicadas pelo próprio César: as faixas são debochadas, sinceras, e tristes ou alegres, se mostram cheias de vida e, acima de tudo, doces.
Com dor no coração por ter deixado muita coisa boa de fora, esperamos que gostem. E ah, não deixem de sugerir um próximo tema também, aqui nos comentários, em nosso Twitter ou pelo contato@miolao.com.
1 – Before I Knew – Basia Bullat
2 – Varrendo a Lua – Roberta Campos
3 – Video – India.Arie
4 – Don’t You Want to Share The Guilt (1st Version) – Kate Nash
5 – At Last – The Do
6 – Hollywood (Acoustic) – Marina and the Diamonds
7 – Little Bit – Lykke Li
8 – I Never – Rilo Kiley
9 – Limon y Sal – Julieta Venegas
10 – Unattainable – Little Joy
11 – Goodbye England (Covered In Snow) – Laura Marling
12 – Someone is there waiting for my song – Aselin Debison
13 – Goody Goody – Peggy Lee
O Miolão indicou o som de Eliza Doolittle há um tempinho, num Music Monday passado, exaltando a “fofura” existente em suas canções. Na época, a moça tinha na praça apenas um EP com quatro adoráveis músicas, que deixavam um gostinho de promessa no ar: ela trabalhava em seu primeiro disco, o homônimo “Eliza Doolittle”, que foi lançado lá fora no último dia doze e estreou em 4º lugar no ITunes UK. Ele prova que sua dona tem todos os elementos neessários pra se destacar ainda mais num cenário musical feroz.
Eliza – cujo sobrenome real é Caird e adotou o Doolittle em homenagem à personagem de Audrey Hepburn em My Fair Lady – possui aquele estilo brincalhão, super colorido e quase infantil de algumas cantoras atuais: suas músicas trazem um duelo constante entre o ingênuo e o malicioso que a coloca na mesma categoria de nomes como Lily Allen e Kate Nash, como tantos críticos gostam de frisar. Um detalhe que alguns deles parecem ter esquecido é que Doolittle está ao lado delas, e não como uma substituta. Mesmo sem agregar nada de muito inovador ao estilo, a jovem – que participava de musicais de teatro durante a pré-adolescência – parece autêntica e segura do que faz.
Eu disse estilo? Bom, vamos “pluralizar” esse conceito, porque Eliza não mira em somente um gênero musical para criar suas canções. A capa do disquinho mostra a garota brincando com elementos diversos que, digamos assim, compõem seu imaginário. Encare a ilustração como uma metáfora (!) para sua sonoridade: ela junta pop, black music, r&b, toques sessentistas e outras pitadas agradáveis para compor um conjunto delicioso e bastante harmonioso.
Em entrevista, ela disse que esperava criar canções que tivessem uma boa vibe e deixassem o ouvinte pra cima – e de fato teve êxito nessa tarefa. Essa mistura toda e a inclinação à doçura evidente na moça formam um disco que disserta sobre as diversas boas surpresas das relações existentes em nossas vidas.
Das treze faixas que o compõem, algumas já eram conhecidas do público, como as primeiras do disco, na sequência: “Moneybox” é uma musiquinha grudenta que já foi desconstruída pelos caras da banda The xx num remix incômodo; “Rollerblades” tem cara de trilha sonora de comédia romântica e “Go Home” é discreta e possui um forte verniz retro, com direito a sonzinho um pouco “arranhado”, remetendo à gravações antigas. Curiosamente, elas prendem a atenção, mas Eliza deixou o melhor para ser ouvido em seu debut.
“Skinny Genes” foi lançada há alguns meses e foi o primeiro single do álbum. Ganhou um clipe gracioso, que apresentou a cantora de forma apropriada ao público. A canção é daquele tipo de música tão gostosa que você logo quer voltar pro começo e ouvir de novo. Assovios contagiantes embalam a faixa, onde Eliza fala das pequenas coisas que a irritam em seu parceiro e de como ele poderia ser mais do que mostra ser. Na sequência há “Mr. Medicine” , que é simpática e só. Vem coisa melhor pela frente.
“Missing”, apesar do trocadilho infame no início (“I am Doolittle/but I do a lot”) é uma boa reflexão bem sobre querer mostrar o seu melhor e destacar-se no meio da multidão, e traz um sampler de “Come Softly To Me”, do Fleetwood Mac. Na linda “Back to Front”, o mundo dos sonhos de Eliza está de trás pra frente, e ela tem vontade de recuperar as coisas do passado. Os assovios estão de volta aqui neste que é um dos melhores momentos do álbum.
“A Smokey Room” é um momento “cante junto” curtinho, que quebra o romantismo, recuperado logo em seguida com “So High” – música que poderia facilmente entrar no repertório de Corinne Bailey Rae. Em “Nobody”, Eliza contradiz a mensagem de “Missing”: nessa, ela diz que não há problema nenhum em desejar não ser ninguém, se isso significar poder ser ela mesma. “Police Car” é a melhor faixa do álbum, na minha modesta opinião. Ela é a quarta canção que integrava seu antigo EP e me conquistou desde aquela época. Dona de um ritmo bem trabalhado, minimalista e muito eficaz, a voz de Eliza está linda e muito bem encaixada, quase intrínseca à canção. Adorável – você precisa ouvir.
“Empty Hand” é a faixa que encerra o disco. Parece uma canção de ninar, ou parte de um musical infantill. Serena e limpa, ela fecha a tracklist com ares de “foi tudo um sonho… hora de ir pra cama pra acordar e brincar de novo no dia seguinte.”
Ah, tem uma faixa que eu não comentei: “Pack Up”, seu novo single. Sampleando a clássica “Pack Up Your Troubles In Your Old Kit Bag”, de George Henry, a música traz o groove dos anos 40 de volta e merece bombar. Daquelas pra sorrir – bem como todo o CD. Escute num dia de profundo mau humor e permita-se compartilhar do imaginário de Eliza Doolittle . Se você logo começar a cantarolar… ela te conquistou. :)
Kate Nash é uma das cantoras jovens mais competentes do cenário musical atual. Ela, que lançou seu primeiro álbum (o despretensioso e excelente “Made of Bricks”) em 2007, foge da estupidez de algumas jovens estrelas da música: em suas músicas, canta o seu ponto de vista sobre casos diversos em espécies de narrativas curtas e ácidas, sem economizar no deboche, na sinceridade e numa meiguice um pouco torta, típica de suas criações. Seu sotaque britânico indefectível é um charme a mais, e a própria figura de Kate é cativante: a cantora parece uma personagem de desenho infantil, com seu visual retrô.
Os boatos da gravação de seu segundo álbum começaram na primeira metade do ano passado e só nos últimos meses ganharam contornos mais certos: a cantora afirmou que ele seria inspirado por bandas que ouvia durante o processo de produção, como os tradicionais grupos femininos de rock dos anos 60 e convocou o produtor Bernard Butler – que já havia trabalhado com o Kings of Leon – para moldar seu futuro lançamento, que pelas definições, parecia se tratar de um disco mais enérgico, agitado. Pouco a pouco, além de informações sobre o disco, algumas de suas faixas foram sendo conhecidas pelo público e na última semana – depois de ter vazado dias antes – chegou às lojas o aguardado CD, que ganhou o singelo título de My Best Friend Is You.
Se “Made of Bricks” parecia retratar o imaginário quase lúdico de uma garota que “brinca o dia todo no seu quarto”, “My Best Friend Is You” parece mostrar que a mesma resolveu sair de dentro do seu próprio mundo e está ainda mais a vontade para compartilhar as idéias dentro de sua cabeça. O novo disco de Kate soa livre e animado como o antecessor, como se a cantora prosseguisse fazendo exatamente aquilo que gosta, misturando todas as linguagens que se encaixam no seu conceito de “fazer música” e as influências sonoras que lhe agradam.
Ela brinca com suas criações com muita desenvoltura: interrompe canções para recitar poemas, grita, faz experimentações com o tom de sua voz, encarna a menina ingênua e cheia de dores-de-cotovelo em uma faixa e aparece sensual e rocker em outra, pra citar alguns exemplos. “My Best Friend Is You” é um tanto mais “eufórico” que o anterior, mas não a ponto de causar espanto ao ouvinte que já é fã de seu trabalho: tudo ali tem a cara de Kate, em todos os seus pormenores.
São doze faixas, mais uma hidden track, onde a inglesa mostra suas diversas “personas”: em Take Me to a Higher Plane e Kiss That Grrrl, Kate surge contagiante e cheia de energia juvenil. Early Christmas Present ganha como faixa mais doce do disco – apesar de ficar claro para o ouvinte que o tal “presente de natal antecipado” que a cantora cita não é nada agradável… A inspirada Pickpocket sacia um pouco a ausência do piano nas músicas do disco, instrumento que dava as caras com mais freqüência em “Made of Bricks”. I’ve Got a Secret é uma faixa grudenta – e anti-homofóbica? – que torna-se cada vez mais empolgante conforme a ouvimos.
Dois momentos merecem destaque especial: o primeiro é The Mansion Song, um disparo furioso onde Nash critica o comportamento tido como “moderno” assumido por algumas mulheres – mas que é somente vazio. O ritmo é frenético e mostra o quanto Kate foge do convencional. A música, esquisitinha, é bem mais densa do que I Just Love You More, faixa do disco que remete à alguma gravação punk, mas que se perde com sua letra banal e ritmo arrastado. O segundo é You Were so Far Away e seu embalo lento, um pouco “poluído” : a faixa mais tristonha do álbum parece falar sobre suicídio, e traz a inglesinha cantando de forma mais natural o arrepiante trecho “I can taste the metal/Feel the gun in my mouth“, num lamento suave e conformado.
Uma constatação interessante é que muitas das canções que compõem o seu trabalho já eram velhas conhecidas dos fãs: Kate costumava apresentar muitas delas em apresentações ao vivo há tempos, ou já havia gravado versões demo e não definitivas das mesmas. Don’t You Want to Share The Guilt, lançada anteriormente como B-Side, aparece com letra alterada e mais rápida: não tão boa quanto antes mas ganha fácil como uma das três melhores composições do disco e ainda assim consegue empolgar e I Hate Seagulls, uma ingênua canção de amor onde a artista enfileira as coisas simples que detesta em sua vida para mostrar o quanto ama seu parceiro.
Kate Nash passou com louvor no teste do segundo disco e entregou aos ouvintes mais uma amostra do seu pequeno universo cativante. Para encerrar o post, confira abaixo o clipe de Do-Wah-Doo, primeiro single extraído de “My Best Friend Is You” e diga: quem fica alheio ao carisma e ao talento de Kate Nash?