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A Mulher Que Não Queria Acreditar, Fernanda Takai

Nos últimos dias, Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, lançou por intermédio da editora Panda Books A Mulher Que Não Queria Acreditar, seu segundo livro. Assim como aconteceu em Nunca Subestime Uma Mulherzinha, sua primeira incursão no mundo editorial, A Mulher Que Não Queria Acreditar é uma compilação de contos e crônicas publicados no jornal O Estado de Minas.

Para quem desconhece seu trabalho enquanto escritora, o início do livro pode parecer bobo, talvez até sem graça. No entanto, essa impressão é dissipada conto a conto, linha a linha, palavra por palavra. Em historinhas que não duram mais do que 3 páginas, Takai narra cenas cotidianas que arrancam sorrisos, reflexões, risadas e, às vezes, lágrimas.

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O Estranho Mundo de Zofia e Outras Histórias, Kelly Link

Ok, a ilustração da capa é linda. Mas o título e as referências exageradas (citam Alice, Tim Burton, Sandman e muitos outros) dão a ideia errada de que Kelly Link tenta emular – ou mesmo copiar – o estilo dos realizadores citados.

Não é o caso. O livro, que originalmente se chama Magic For Beginners, tem personalidade própria e potencial suficiente para se sustentar sozinho. Uma pena que a editora não acredite nisso – apesar da crítica ter reconhecido O Estranho Mundo de Zofia e Outras Histórias como um dos livros do ano. Continue lendo →

O Apanhador no Campo de Centeio 2?

Não é só o cinema que vira e mexe recebe sequencias desnecessárias: no mundo editorial isso é mais comum do que a gente imagina.

A empreitada da vez cabe a Fredrik Colting e seu improvável desejo de dar continuidade ao mega clássico O Apanhador no Campo de Centeio (meu livro preferido!) originalmente escrito por J.D. Salinger.

O texto de Salinger que é tido até hoje como um dos principais romances adolescentes, foi publicado pela primeira vez em 1951 e de lá pra cá se tornou um dos livros mais sinceros, cruéis e interessantes sobre o tema “crescer”. Narrado em primeira pessoa por Holden Caufield, um adolescente que detesta quase tudo e quase todos, o romance fala, entre outras coisas, sobre retidão, inocência e também sobre… Ah! Leiam vocês, caso não tenham lido ainda.

Na continuação, que recebeu o nome de 60 Anos Depois: Do Outro Lado do Campo de Centeio, Fredrik transforma Salinger, o autor, em personagem e foca num Holden Caulfield já idoso que foge de um asilo para tentar se encontrar com seu passado.

Embora a premissa pareça deveras interessante, a obra causa desconfiança e soa até mesmo oportunista, visto que Salinger morreu em janeiro desse ano.

Pessoalmente duvido muuuuuito que o novo livro tenha, sei lá, um centésimo da genialidade e honestidade da história original… Mesmo assim, pra quem se interessou, vale dizer que ele estará disponível nas lojas a partir de terça, dia 16/11/2010, graças a Verus Editora.

Eu leio, tu lês, nós lemos

Em homenagem ao Dia do Livro nós, desmiolados, indicaremos nossas obras preferidas. Vem, gente!

Renato Alves, Kitchen.
O livro que indico para comemorar a data já ganhou um post no Miolão anteriormente, mas merece ser relembrado sempre: Kitchen, de Banana Yoshimoto é um achado, muito inspirador. Composta por dois contos:  “Kitchen” e “Moonlight Shadow”. Ambos trazem, como protagonistas, moças jovens que habitam a capital japonesa e enfrentam situações similares, devido a perda de entes queridos. As duas, cada uma à sua maneira, buscam aquelas coisas da vida que nos fazem criar novo ânimo depois de uma queda brusca. A proposta é bem simples, mas o livro não economiza na sensibilidade e entrega uma obra completa, que você não sabe apontar um único motivo pra justificar o quanto é boa. Ela simplesmente é, por várias e incríveis sutilezas.

Sanny Sassi, Lolita.
Foi o primeiro livro que ganhei da minha mãe. Eu tinha 13 anos na época e achei a estória envolvente, intrigante e peculiar. Confesso que invejei Lolita por tantas sensações diferentes às quais ela fora exposta, com tamanha intensidade, e desejei estar em seu lugar diversas vezes. Tive meu Humbert Humbert, não de forma doentia como no livro, mas com intensidade suficiente para torná-lo uma experiência inesquecível, como este livro é para mim.

Thiago Dantas, Cotoco.
Foi difícil escolher um único livro preferido. Não é que eu leia muito (leio menos do que eu gostaria e bem menos do que eu deveria), mas é que sempre que eu leio me apego demais aos personagens. Foi o que aconteceu com Cotoco, de John van de Ruit. A personagem título é um garoto de 13 anos que se muda para um internato só de meninos em meados de 1990 e sofre pra caralho na mão dos colegas. Tendo como pano de fundo a África do Sul antes do Mandela assumir a presidencia, o livro é narrado em primeira pessoa e tem um clima ensolarado e inocente, como se a turma do filme Os Batutinhas tivesse crescido e ancorado no mais antigo continente. O motivo que me levou a escolha, mais do que qualquer outro, foi o efeito que a historinha de Cotoco conseguiu: eu ri, gargalhei e me emocionei numa época um pouquinho complicada da minha vida. Recomendo demais. Boníssimo!

E você, o que indica pra gente?

Eat Pray Love

Vou confessar: “Comer Rezar Amar” é um dos meus grandes guilty pleasures. Sabe quando você gosta de algo, nem sempre admite por causa de algum de seus aspectos, mas se entrega à suas delícias mesmo assim?

Pois é: peguei o livro pra ler há tempos e embora não tenha terminado porque dei prioridade à outros, adorei o pouco que li. É um tipo de literatura agradável, confessional e envolvente, embora repleta de clichês meio “auto ajuda” e passagens melosas.  Não demorou pra que tivessem a idéia de adaptar a obra, um sucesso gigantesco do mercado editorial recente, para os cinemas: aqui no Brasil, ele estreou na última sexta-feira, mais de um mês após seu lançamento no exterior.

Pra quem não conhece a trama, um resuminho: trata-se da história real de Elizabeth Gilbert, jornalista/escritora insatisfeita com seu casamento que decide terminar tudo e, após o cansativo processo de separação, viaja para diferentes locais em busca de novos sentidos e rumos para a vida. Em sua jornada, ela se entrega aos prazeres gastronômicos da Itália, busca restaurar a sua fé na Índia e procura respostas para o crescimento interior em Bali, onde ainda arranja tempo para uns pretendentes…

Ok, é o tipo de “jornada pessoal” com todos os elementos que Hollywood adora, mais manjados do que cantar “Olhos Coloridos” da Sandra de Sá em eliminatória do “Ídolos”. Fiquei com um pé atrás nos 10 primeiros minutos de exibição, com receio de que houvessem emprestado um tom ainda maior de “chororô” para a história na tela grande. Esse medo, porém, se dissipou dez minutos após o inicio da projeção: é o suficiente pra você perceber que nas próximas duas horas, assistirá um filme que transita de forma leve (e previsível) pelas passagens descritas na sinopse. Deixei a desconfiança pra lá e me entreguei (de novo!) ao guilty pleasure.

Dirigido por Ryan Murphy (o cara por trás de Glee), “Eat Pray Love” é uma “dramédia” romântica competente, com um ótimo ritmo (apesar de perder o fôlego próximo do final) e que apela para o emocional de forma menos descarada do que eu imaginei que faria. Consegue equilibrar doses de humor charmoso com aquelas cenas onde são apresentadas situações que nos fazem questionar o que faríamos no lugar de Liz. Pode ser que na vida real os acontecimentos na vida de Gilbert não tenham rolado, convenhamos, de forma tão empolgante quanto vista aqui, mas a gente abstrai e, assistindo o filme, torce para que as coisas finalmente se tornem mais claras na cabeça da moça.

É também um pouco moralista em certos aspectos, mas analisar as mensagens pregadas por ele se torna uma tarefa dificil, considerando que na vida, cada um deve procurar aquilo que lhe traz satisfação da forma que achar melhor. Vish, isso pareceu muito “auto ajuda”? Vou tentar explicar melhor: você pode concordar com o que é mostrado na tela ou não, mas é fato que nada contido no filme pode ser considerado como “a resposta definitiva para todos os problemas que existem”. “Comer Rezar Amar” pode ser tratado como sendo até “inspirador”, mas acreditar que ele irá mudar sua vida – como alguns fãs, inclusive ilustres, tem dito sobre a obra original – penso, é forçar demais.

Outros pontos que merecem destaque são as suas lindíssimas e vivas locações, a bela fotografia e o elenco, onde cada um cumpre bem seu papel. Tenho um certo “travamento” com a Julia Roberts: era super seu fã antigamente, até perceber que ela sempre me deixa querendo algo mais. Manda bem, mas por vezes parece distante, didática demais em cena, tipo “vou fazer direitinho, mas sem grande envolvimento”. Javier Bardem é uma presença agradável: carismático, rouba a cena como o affair brasileiro de Elizabeth. Outro que merece destaque é Richard Jenkins, interpretando o sarcástico Richard que cruza o caminho da personagem com um segredo pessoal sombrio e buscando redenção. A ótima Viola Davis não teve chance de mostrar o quanto é boa, presa num papel que não lhe oferecia muitas possibilidades.

Aproveite que é domingo, renda-se a um “guilty pleasure” de fim de semana e assista “Comer Rezar Amar”, sem grandes pretensões. Tenha em mente o que irá encontrar na telona e você terá, no mínimo, alguns bons momentos de diversão. :)

ps. Antes de assistí-lo, almoce/jante bem. Senão vai “sofrer” muito com as cenas da Itália. Ok, é tudo tão tentador que você pode sofrer mesmo bem alimentado.

ps2: Diretores, produtores, amigos… música brasileira não é só “Samba da Benção”, ok? E ninguém aqui considera super comum ficar beijando os pais na boca. (!)

Eat Pray Love, Ryan Murphy, 2010.
Comer Rezar Amar. Com Julia Roberts, Javier Bardem, Viola Davis, James Franco, Richard Jenkins.

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Acho que era sábado. Ou domingo. Pra ser sincero não lembro. Nesse dia, parte do MIOLÃOTEAM estava online no Messenger para decidir a pauta da semana. Não tinha ideia sobre o que falar, até que minha namorada sugeriu que eu abordasse Bonequinha de Luxo, o livrinho que deu origem ao (melhor) filme (do mundo). Comprei a ideia na hora, super animado. E pronto. Estava decidido: o Deve Ler da semana seria sobre a personagem mais adorável de Truman Capote. Mas aí me mandaram essa imagem. E decidi mudar tudo.

Admirável Mundo Novo foi escrito em 1931 por Aldous Huxley e vendido como um tenebroso retrato do futuro. No mundo distópico pregado por Huxley não haveria guerras, caos, tristeza ou depressão. Todas as pessoas entenderiam seu papel na sociedade e trabalhariam para o bem comum.

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“Persépolis”, de Marjane Satrapi

Escolhemos uma obra um pouco diferente para a indicação de leitura da vez: a primeira HQ que o Miolão apresenta é um dos maiores sucessos desse mercado nos últimos anos e prova que atualmente, quadrinhos podem ser não somente deslumbrantes aos olhos ou um bom passatempo, mas também registros eficazes sobre nossa realidade. Tão emocionantes e essenciais quanto qualquer obra literária.

“Persépolis” foi lançado originalmente na França, em 2000. Escrito e lindamente ilustrado por Marjane Satrapi, o livro - publicado em quatro volumes e também edição completa aqui e lá fora – é uma autobiografia em quadrinhos; portanto, para começar a falar sobre a obra, comentaremos antes sobre a criadora. Nascida no Irã, a autora teve contato com o contexto político e ideológico de seu país desde muito nova: bisneta de um imperador, amadureceu sob a influência de pais liberais e politicamente engajados, tornando-se uma garota rebelde e contestadora.

Desde cedo, presenciou também a carnificina promovida durante os confrontos pelo poder que aconteciam no território. Foi enviada para a Europa pelos pais aos 14 anos, que acreditavam que essa era a atitude mais sensata se quisessem que sua filha tivesse uma educação mais “liberta” de dogmas e tabus e do risco dos confrontos entre Irã e Iraque. Lá, presenciou choques culturais, embarcou numa viagem de conhecimento próprio e exterior, até que retornou já mais velha para sua terra natal, onde cursaria belas-artes.

Uma trajetória tão atribulada dessas parece mesmo acontecer para ser posteriormente contada. A saga real de Marjane apresenta elementos da história de qualquer pessoa que reside no Oriente Médio, e que são conhecidos por diversas pessoas ao redor do mundo. Se o contexto político – tido por alguns como enfadonho – fez com que você virasse o nariz para a trama, pode pensar de novo.

“Persépolis” é uma obra contestadora: ela esmiúça o fanatismo religioso, o poder cego que os povos almejam e outros fatores pela ótica da escritora, que descreve tudo com detalhes que só alguém que já esteve no “olho do furacão” poderia contar. Tudo está retratado lá: sua infância, quando a revolução xiita estava no ápice, a opressão sofrida pelas classes, a tensão – violência constante e a incerteza de que você – ou as pessoas que ama – acordarão vivas no dia seguinte. É escancarado e direto, mas ainda assim sutil.

Satrapi, porém, sabe como dosar a forma como conta sobre os dois universos: aquele ao seu redor e outro, particular, dentro dela própria, que foi sendo moldado conforme vivenciava essas experiências, boas ou ruins. Além da guerra eminente, a escritora também narra seus dilemas particulares, que tornam sua realidade ainda mais familiar à todos. “Persépolis” possui também o “aroma” de memórias particulares e doces, como quando ela narra os reencontros familiares, suas paixões juvenis, conquistas ideológicas e gritos de liberdade, por menores que sejam – mesmo que se trate somente de um “transgressor” botton do Michael Jackson.

Dificil não torcer pela vida dos protagonistas e dos diversos personagens que vêm e vão – e não se emocionar ao constatar que aquilo todo foi (e é) real, e quantas Marjanes com menos sorte existem por aí…

Uma leitura que, quando chega ao fim, abre nossos olhos não somente para entender mais sobre uma parcela da história mundial que chega até nos como “flashes” nos telejornais – e que muitas vezes não damos tanta importância – mas que também conta como a determinação e a ânsia pela liberdade podem nos levar mais longe.  Tão cheia de calor humano que é uma pena chegar na última página.

E ah, como concluir esse texto sem citar a adaptação para os cinemas, lançada em 2007? Sim! “Persépolis” virou um longa animado sensacional há alguns anos, adaptação fiel do que é mostrado na versão impressa, indicada ao Oscar de Melhor Longa Metragem de Animação em 2008 e vencedora do Prémio do Juri no Festival de Cannes. Recomendamos muito que você também procure pelo DVD e “devore” ambos: tanto a HQ quanto a película.

Que tal conferir o trailer?

Imagem de Amostra do You Tube

PERSÉPOLIS.
Autora: Satrapi, Marjane.
Tradutor: Werneck, Paulo.
Editora: Companhia das Letras.
Ano de lançamento: 2004.

 

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