“Os anos 80 foram a época de ouro da publicidade no Brasil.”
Nunca concordei muito com essa definição rasa que os professores insistiam em passar durante as aulas de História da Publicidade. Eu, que cresci nos anos 90, sempre fui fã dos filmetes exuberantes e engraçadinhos daquela época. Talvez tenha sido isso que ditou minha preferência. Revendo alguns filmes já clássicos da década anterior, como o comercial de hoje, percebo que é bem verdade que os anos 80 tiveram sim seu valor e que meus favoritos eram favoritos por causa de lembranças afetivas…
Diferente de algumas cantoras desse estilo, que criam trabalhos incoerentes, inconsistentes e cujo envolvimento pessoal parece zero, ela ingressou em sua fase solo com uma visão exata daquilo que gostaria de fazer – tanto em seu som quanto no estilo. Gwen se jogou de cabeça em suas próprias referências, que vão desde a alta costura até personagens da literatura, e, autêntica, criou uma festa de estilo.
Em alguns comerciais a trilha é tão importante que é certo dizer que sem elas eles simplesmente não existiriam.
É o caso do filmete Fábrica, encomendado pela Ford para divulgar o Focus em 2008. Produzido pela JWT, o vídeo de um minuto mostra profissionais das mais variadas áreas em ação trabalhando na confecção do carro ao som de Happy Together, clássico inabalável do The Turtles de 1967.
“I’ve loved, I’ve laughed and cried/I’ave had my fill, my share of losing/And now as tears subside/I find it all so amusing/(…) And may I Say, not it a shy way, oh no, oh no, not me… I did it my way”.
(“Eu amei, eu ri e chorei/Eu tive minhas falhas, minha parte de derrotas/E agora como as lágrimas caem/Eu acho isso tudo tão divertido/(…) E talvez eu diga, não de um jeito tímido, oh, não, não, não eu… Eu fiz do meu jeito.”)
Ano passado li uma nota deveras interessante que afirmava com veemência que My Way, na voz de Frank Sinatra, era a música preferida da população do Reino Unido para tocar em cerimônias fúnebres. O texto, divulgado pela AFP, dizia que a cada 10 sepultamentos pelo menos 5 usavam a canção como trilha.
O que me pareceu bizarro à primeira vista, fez bastante sentido quando pensei na letra: um misto de autoafirmação, saudade, retrospecto e orgulho. E o que as pessoas mais querem se não sentirem-se orgulhosas de suas vida? Aliás, foi o “orgulho” o mote central de “Mudança”, um dos filmes publicitários mais cruéis, interessantes e tocantes que já tive a oportunidade de ver.
Criado pela agência Almap/BBDO em 2007, o anúncio encomendado pelo Greenpeace é uma verdadeira provocação. Mostrando imagens desastrosas e vergonhosas durante todos os seus 60 segundos, o vídeo só revela seu intento no final, quando junto com o nome do Greenpeace aparece a frase:
“Lembra como sua geração sonhava em mudar o mundo? Parabéns, vocês conseguiram”.
A música, triste por excelência, casou perfeitamente com o belíssimo vídeo. Com um tom bastante pessimista, os versos adaptados por Paul Anka da canção Comme d’habitude da dupla francesa Claude François e Jacques Revaux, tiveram no vídeo um sentido estranho onde a esperança e o orgulho foram substituídos por embaraço, amargura e decepção.
A série de posts “Música de Comercial” foi criada em agosto com o objetivo de mostrar que a Publicidade, que normalmente é associada a mentiras, manipulação e consumo exacerbado de itens supérfluos, também pode ser interessante, divertida e relevante para a sociedade.
Publicada originalmente as segundas-feiras aqui no Miolão, a sessão não aparecia no site desde o início de novembro. No entanto, hoje, no Dia da Propaganda, me senti na obrigação de resgatá-la para homenagear essa classe que consegue produzir alguns anúncios tão interessantes (que mesmo com a duração efêmera e seus intuitos comerciais) podem ser considerados verdadeiras obras de arte.
Quantos comerciais você já não assistiu que mostravam um belo carro andando lindamente por um cenário vazio e bucólico?
Se você ligar sua televisão agora é bem provável que logo nos primeiros minutos você seja bombardeado por 1, 2, 3 ou 4 propagandas de carros desse jeito. Assim como acontece com a maioria dos comerciais de cerveja, os filmetes feitos para divulgar automóveis raramente fogem do modelo descrito acima e de tão comuns parecem ter sido produzidos pelas mesmas mentes (nada) criativas.
Mas, como em toda a regra, temos também exceções, como no caso do comercial acima. Produzido pela agência argentina Agulla y Bacetti, o filmete que mostra um garoto meio bobo repetindo incontáveis vezes a palavra “geropa” foi o grande vencedor do Festival de Cannes de 1999. Inusitado e divertido, o filme foi encomendado para divulgar o lançamento do Renault Clio MTV. Adaptada pela Lowe e exibida no Brasil entre 2001 e 2002, por aqui a propaganda ficou conhecida como “o comercial do ‘gerooopa!’ e levou em 2002 o Prêmio Multishow de melhor comercial do mês.
“Geropa!”, que na verdade é “Get On Up“, é o refrão de Sex Machine, um dos grandes clássicos da lenda chamada James Brown – indiscutivelmente uma das figuras mais fantásticas e importantes da história da música mundial. Cheia de gingado, Sex Machine foi gravada pela primeira vez em 1970 para o disco homônimo e regravada em 1975 para o álbum Sex Machine Today.
Mesmo após 40 anos do lançamento, Sex Machine conversa sua essência funk e faz bonito nas pistas e festinhas por onde passa. O mesmo ocorre com a propaganda, que mesmo já tendo mais de 10 anos, não envelheceu nada e ainda consegue arrancar sorrisos.
Falar sobre o comercial de hoje me fez lembrar de uma antiga Mixtape que o Miolaoteam colocou no ar.
O tema da seleção era liberdade, e penso agora que a música desse vídeo sempre me transmitiu uma sensação estranha, que se relaciona ao “ser livre”, mas com uma pitada de tristeza. Sabe aquelas canções que emocionam, mas tem tanta energia que te fazem dançar, se sentir livre e com vontade de gritar? Pois é. Me arrependi de não tê-la selecionado para o disquinho, mas a homenagearei agora!
“Dancing With Myself”, clássico criado pela banda punk Gen X, que trazia o cantor Billy Idol nos vocais possui um refrão emblemático e famoso, que incita o ouvinte a dançar quando não há mais nada a ser feito pra contornar a solidão. No comercial da Claro Music Store, ela surge como a faixa perfeita para uma corrida pelas ruas.
Pra ser sincero, me incomoda um pouco vê-la sendo usada numa propaganda do gênero: não parece fazer jus ao seu conteúdo, apesar de cativar, de certa forma. Diferente de mim, os publicitários espertinhos não esqueceram da canção, que, inegavelmente, valoriza o filmete.
A versão do vídeo foi gravada pelo próprio Idol em carreira solo e, bem como a original, merece ser não apenas ouvida, mas sentida.
Quantos comerciais uma pessoa pode fazer em quase três décadas de carreira? No caso de Madonna, incontáveis, e esse número continua aumentando. Mostraremos no “Música de Comercial” de hoje, um dos diversos que a rainha já gravou. Esse, das antigas!
O vídeo acima foi produzido pela Mitsubishi quando a cantora ainda era um fenômeno relativamente recente. Lançado em 1987 no Japão, anuncia o novo produto da marca – um vídeo cassete “Hi-Fi”. Ao som de “True Blue”, faixa de seu quase ingênuo disco homônimo, Madonna caminha por prateleiras e resolve testar o aparelho com um grande “M” cintilante. (?)
Vale lembrar: na época, ela estava rodando por vários lugares do mundo com sua turnê “Who’s That Girl?” e a Mitsubishi era uma de suas patrocinadoras. Posteriormente essa parceria seria repetida durante a marcante “Blonde Ambition Tour”.
O vídeo possui uma versão estendida, com uma introdução um tanto irritante, que você pode assistir aqui.
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