
“Tapestry”, de Carole King, é um clássico inesperado. O disco, na época apenas o novo lançamento de uma cantora de sucesso até então mediano, conquistou o público em meados dos anos setenta, tornou-se um dos álbuns mais influentes da história da música e expandiu o horizonte das artistas femininas numa época em que as nuances do comportamento humano eram exploradas por pouquíssimas, embora muito competentes representantes desse nicho.
Carole, que iniciou sua carreira artística em meados de 60, era, nesse período, apenas uma compositora de muito talento – escrevendo, por anos, músicas amadas por uma geração inteira e interpretadas por nomes como Aretha Franklin e a banda A-Ha – e que ainda buscava aumentar sua experiência como intérprete. A cantora possuía um enorme medo do palco, apesar do gigante talento vocal e da habilidade com o instrumento musical que a consagrou, o piano. King nunca se mostrou muito envolvida pela fama, apesar de surpresa com o reconhecimento que conseguiria tempos depois.

Somente em 1970, ela começaria a se aventurar mais em performances ao vivo e a “mostrar a sua cara”, apresentando seu trabalho diretamente ao público e recebendo um retorno direto. Nessa época, lançou “Writer”, seu primeiro disco – bem recebido pela crítica, mas que possuiu vendagens mornas e não conseguiu chamar a atenção de grande parte das pessoas para essa competente cantora. O medo dos palcos, ao menos, seria atenuado durante essa fase. E mesmo se não fosse, Carole teria, nos anos seguintes, várias experiências que poderiam ser descritas como verdadeiros “tratamentos de choque” para alguém focada apenas em apresentar o que sabia fazer.
Lançado um ano após, “Tapestry” traria mais um apanhado de canções de Carole, escritas pela própria e também com o auxílio de alguns convidados, como Gerry Goffin, que, em 1971, ainda era marido e casual parceiro de trabalho da cantora. As músicas, sinceras e que abordavam temas variados como amor, rejeição, a perda de pessoas queridas, reflexões sobre sua própria condição, entre outros, caíram nas graças do povo: é difícil acreditar que tenha sido apenas por mera sorte. Pode ter sido um reflexo da época pela qual o mundo estava passando, quando a década de 60 mal tinha acabado, alguns ídolos do rock já haviam marcado seus nomes na história por chamar a atenção do mundo para coisas maiores que a frivolidade cotidiana e faltava um pouco mais de profundidade à música pop. Ou toda essa teoria pode cair por terra e se tratar apenas de um caso de reconhecimento – merecido! – a uma artista talentosa.
Permanecendo por 15 semanas em primeiro lugar nas paradas americanas e seis (!) anos alternando entre diversas posições sem sair da mesma, “Tapestry” lançou hit atrás de hit. Deste álbum, saíram canções como a verdadeira e confessional “It’s Too Late” – sobre um amor que já não tem mais solução e que tornou-se uma das maiores músicas da década de 70 – “So Far Away”, uma canção sobre os caminhos que as pessoas tomam na vida e terminam afastando-as, mesmo contra a vontade delas, “You’ve Got a Friend” – uma das mais queridas pelos fãs da cantora em seu repertório – “Where You Lead” – a cativante música de abertura de Gilmore Girls, lembra? – “Will You Still Love Me Tomorrow”, que, recentemente, ganhou uma ótima cover feita por Amy Winehouse para a trilha sonora de “O Diário de Bridget Jones 2 – No Limite da Razão” e “(You Make Me Feel) Like A Natural Woman” – clássico na voz de Aretha Franklin, composto por Carole e que ganhou aqui uma roupagem mais intimista, mas ainda assim poderosa – e emocionante.
Além dessas, que são mais conhecidas, estão entre as doze faixas a linda “Way Over Yonder” – um doce lamento sobre um lugar idealizado onde a vida é mais simples, “Home Again”, que trata daquela tristeza inexplicável que sentimos algumas vezes em dias aparentemente normais e “I Feel The Earth Move”, a contagiante faixa de abertura, lançada como B-Side no single de “It’s Too Late”. Sem contar ainda as restantes – não citadas aqui, mas que também merecem ser ouvidas. Uma curiosidade: cantora Joni Mitchell,outra musa da década de 70, faz participação em algumas faixas do disco como backing vocal, assim como James Taylor, músico e usual colaborador de Carole.

O disco ganhou diversos prêmios, entre eles quatro Grammy’s: Melhor Performance Pop Vocal Feminina, Música do Ano (You’ve Got a Friend), Gravação do ano (It’s Too Late) e, claro, “Álbum do Ano”. Carole King se transformaria num ícone daquela época e até hoje, “Tapestry” é revisitado por diversos artistas em discos de tributo e por publicações especializas, figurando em listas freqüentes de melhores álbuns já lançados.
Atualmente, Carole King está quase no total ostracismo, e é lembrada principalmente pelo seu grande passado cheio de êxitos. Mesmo afastada da cena musical, a norte-americana um dia entregou ao mundo uma verdadeira cartilha de como se faz música pop com alma e sinceridade. Ela conseguiu transgredir com sua visão peculiar e sensível das coisas, provando, com seu despretensioso segundo álbum, que um apanhado de confissões bem contadas e um bocado de talento é uma mistura sempre bem vinda.