A vibe do repertório de Ke$ha não poderia ser melhor definida do que com uma frase contida no encarte de seu primeiro CD, “Animal”, escrita em letras cheias de glitter: “It’s party time!”. Noitadas, rapazes prepotentes e amigos loucos para festejar são temas recorrentes em suas letras, só pra citar alguns. Ela, que abusa do deboche e quase sempre pende para a vulgaridade, faz canções descartáveis, mas eficazes em seu propósito: divertir.
Mas o que acontece quando um artista totalmente oposto à figura bagaceira da moça resolve se aventurar pelas suas canções?
A resposta pode ser conferida em nosso cover de hoje: o cantor e produtor Ben Folds, cujo som difere muito do pop radiofônico da loira, resolveu fazer sua própria leitura de “Sleazy”, que compõe o EP “Cannibal”, lançado por K em 2010.
No mundo do skate a palavra slam significa algo mais ou menos como queda. Mas não qualquer queda. É “A” queda. Aquela que te arrebenta.
Lançado em 2008, o quinto romance do fantástico Nick Hornby (autor do cultuado Alta Fidelidade), conta a história de Sam, um garoto de 16 anos que, aparentemente, não tem nada de diferente dos outros garotos de sua idade: está na escola (mas não pensa muito no futuro), vive com sua mãe (que tem apenas 32 anos!), joga vídeo-game e anda de skate (seu ídolo maior e grande exemplo de vida é Tony Hawk, o skatista).
Sam não é muito inteligente, nem bonito, nem interessante nem mesmo muito esperto… Mas ele tenta ser um bom garoto, seguindo sua rotina numa boa, sem incomodar ninguém. Basicamente é isso aí. Sam é comum. Tão comum que irrita. Só que aconteceu uma coisa interessante com Sam. E essa coisa justifica um livro inteiro.
Narrado em primeira pessoa por seu protagonista, Slam se desdobra entre um diário falado e um conto fantástico. A enorme quantidade de gírias e o tom meio displicente (que se aproxima muito de uma conversa) caracterizam a voz da personagem principal como um discurso crível e, se não rico em sua forma (o vocabulário de Sam não é bom e os recursos utilizados por ele são pífios), impressionante por seu conteúdo. Sam tem algo a dizer. Uma história incrível para contar. E basta ler as primeiras páginas para querer ouvir. O mais legal no livro é que lê-lo é mais ou menos como ouvir a voz do garoto. É fácil.
Ben Folds, ex-integrante da banda Ben Folds Five, lançou seu primeiro disco solo em 2001 e desde então experimenta e compõem um “piano rock” divertido e dançante. Nick Hornby, o conceituado escritor inglês autor de, entre outros, “Alta Fidelidade” e “Educação”, tem a música como um dos temas recorrentes em sua obra. Foi após Ben Folds ler uma referência a uma de suas músicas no livro de Hornby que surgiu o desejo de montar uma parceria. Assim surgiu “Lonely Avenue”: com as letras escritas por Hornby e a melodia composta por Folds, o álbum já chega gerando expectativa e prometendo ser um sucesso. A premissa é que as músicas são uma série de curtas historias abordando temas desde relacionamentos bizarros até o próprio processo de escrita.
“From Above“, o primeiro single, pode ser escutado por 30 segundos no site amazon.com e “Levi Johnstons-Blue” foi apresentado ao vivo em alguns shows de Ben Folds e pode ser conferido no youtube com uma qualidade meio duvidosa. A estreia do áblum está prevista para 28 de setembro.
Quando comecei a ler as críticas sobre o filme “Educação”, não me espantei com a quantidade de resenhas que classificaram o filme como sendo somente “morno”: nunca li nenhum romance de Nick Hornby, e, por isso, não tinha grandes expectativas em ver o resultado de seu primeiro roteiro criado para as telonas. Havia me atraído de certo modo, mas não me motivou a assisti-lo em tela grande.
Há mais ou menos 10 anos, Nelly Furtado, compositora de origem luso-canadense, chamou a atenção da crítica e do público com o lançamento de Whoa, Nelly!, seu primeiro álbum.
Numa época em que a música pop era uma fabrica de loiras adolescentes (hi, Britney! hi, Christina! hi, Jessica!) e rapazes apaixonados (hi, *N’sync! hi, Backstreet Boys!), Nelly surgiu como um “antídoto” a mesmice. Nelly era, naquele cenário, uma verdadeira Cinderela da música pop.
Fato é que a música pop quase nunca foi levada a sério. Excetuando raras exceções (hi, Madonna! hi, Michael! hi, GaGa?) o gênero desperta preconceito de quem tem, cof cof, bom gosto e apuro musical. No entanto, Nelly Furtado, avessa a fórmulas, conseguiu com seu debut uma boa recepção da crítica e do público.
Até Nick Hornby, roteirista indicado ao Oscar deste ano por seu trabalho em “Educação” e autor dos maravilhosos livros “Uma Longa Queda”, “Um Grande Garoto” e “Como Ser Legal”, se rendeu aos encantos da moça em seu livro “31 Canções” (Editora Rocco, 2005).Leia abaixo o capítulo sobre I’m Like a Bird, a música que levou Nelly ao estrelato:
“É claro que eu entendo as pessoas que desprezam a música pop. Sei que muita coisa do mundo pop, a maior parte até, é lixo, sem imaginação, realizada porcamente, produzida nas coxas, repetitiva e infantilóide (embora pelo menos quatro dos adjetivos acima possam ser usados para descrever os incessantes ataques ao pop que você pode achar em importantes jornais e revistas).
E sei também, acredite, que Cole Porter foi “melhor” que Madonna ou Travis. Que a maioria das canções pop são cinicamente direcionadas para um público-alvo três décadas mais jovens que eu. Que tudo de bom no pop foi feito a 35, 25, 15 anos atrás. E que pouca coisa de valor na pop music foi feita, desde então.
Mas é que de repente tem essa canção que eu ouvi na rádio, e que depois eu comprei o CD, e agora eu tenho de ouvi-la dez ou 15 vezes por dia…
É isso que me intriga sobre os de vocês que acham que o pop atual é uma coisa abaixo de você, atrás de você ou além de você (uso pop aqui para englobar soul, reggae, country, rock… qualquer coisa que você possa achar que é lixo).
Será que você nunca ouviu ou pelo menos nunca se viu atraído por canções novas? Será que tudo o que você cantarola no chuveiro foi feito anos, décadas, séculos atrás?
Você realmente se priva do prazer de se entregar a uma boa nova canção pop porque isso pode manchar sua fama de conhecedor de Foucault?
Então. A canção que tem me enchido de prazer recentemente é “I’m Like a Bird”, da Nelly Furtado. Só a história vai dizer se ela irá se transformar em uma cantora famosa. E, embora eu suspeite que ela não vá mudar o jeito de as pessoas olharem o mundo, não posso dizer que eu esteja muito preocupado com isso.
O fato é que eu sempre serei grato a Nelly Furtado por criar em mim esse narcótico efeito de me fazer ouvir sua canção again e again. Não quero criar um caso com essa música, “I’m Like a Bird”, nem compará-la com qualquer outra _embora aconteça de eu pensar que ela é uma canção pop muito boa, que transmite uma sensação gostosa de sonho, vem marcada por um certo otimismo que, quando tocada em rádio, por exemplo, a diferencia imediatamente das músicas anêmicas que possam vir antes ou depois.
O ponto é que há poucos meses a canção não existia e agora ela está aí. E que ela, em um mundo delimitado, é um pequeno milagre. Algumas vezes no ano, eu gravo uma fita para tocar no carro. Uma fita cheia com essas novas canções que eu fui amando nos meses que antecederam a gravação. Toda vez que eu terminava uma fita, nunca acreditei que fosse gravar uma outra. Mas sempre vai existir a próxima, e mal posso esperar por ela. Um punhado de canções novas como “I’m Like a Bird” e você terá uma vida que valha a pena ser vivida.”
Não dá pra dizer nada. Nick disse tudo. Cabe a nós assistir na próxima semana a Cinderela da Música Pop Nelly Furtado em seus shows no Brasil. Se liga nas datas:
Porto Alegre: 25/03/2010
Onde: Teatro do Bourbon Country – Av. Túlio de Rose, 80.
Quanto? de R$ 75,00 a R$ 300,00;
www.teatrodobourboncountry.com.br
São Paulo: 27/03/2010
Onde? Via Funchal – Rua Funchal, 65.
Quanto? de R$ 90, 00 a R$ 300,00; www.viafunchal.com.br
Rio de Janeiro: 28/03/2010
Onde? HSBC Arena – Embaixador Abelardo Bueno, 3.401.
Quanto? de R$ 80, 00 a R$ 290,00; www.hsbcarena.com.br
E para fechar com chave de ouro, assista Más, último clipe da cantora. A faixa faz parte de Mi Plan, disco gravado em espanhol e lançado ano passado.