Há algum tempo, o Miolão comentou que a cantora Laura Marling lançaria dois álbuns esse ano, e que o primeiro deles sairia em março. O mês de lançamento finalmente chegou e hoje foi lançado oficialmente – apesar de ter caído na rede na semana passada – “I Speak Because I Can”, o segundo disco de sua carreira. Caso você não conheça a cantora, vale contextualizar:
Laura Marling é uma jovem inglesa de vinte anos que ingressou no cenário musical cedo, aos dezesseis. Ela, que já foi uma das componentes da banda folk Noah and the Whale, transita, sonoramente, entre folk, o country e o pop. Seu debut, o sensacional “Alas I Cannot Swim” de 2007, é um disco introspectivo, mas ao mesmo tempo poderoso. Ele, que foi provavelmente um dos melhores discos lançados naquele ano por uma artista feminina, surpreendeu pela maturidade, que não cabe a muitos dos cantores jovens atuais.
É um disco que exige atenção para perceber todas suas minúcias. Tudo é sensacional: a voz bem colocada e carregada de emoção da moça, os arranjos minimalistas e com “viradas” surpreendentes, as composições – as de Laura merecem um parágrafo só pra elas mais à frente – a atmosfera que a jovem consegue criar num enfileirado de canções que, juntas, não passam dos cinqüenta minutos… É um trabalho e tanto, e minha expectativa era alta para o seu novo disco.
Tenho ouvido “I Speak Because I Can” com freqüência nos últimos dias, e creio que por vezes temos que esperar um certo tempo pra construir uma opinião sólida sobre algumas coisas, mas não posso deixar de descrever minha empolgação com o novo trabalho de Laura e minhas primeiras impressões nesses poucos dias de audição.
Ela, que anteriormente era louvada como uma promissora revelação, continua jovem, mas não é mais a garota que um dia foi barrada em uma de suas próprias apresentações, por não ter a idade necessária para freqüentar o pub onde iria cantar. (!) “I Speak Because I Can” transpira amadurecimento.
Se “Alas…” deve ser degustado aos poucos, “I Speak…” não fica atrás. A artista continua transitando não somente por ritmos, mas também por emoções distintas. Suas influências sonoras parecem ainda mais óbvias do que no antecessor, e a verdade com que canta sobre os sentimentos e casos mais variados permanece intocada. Sua voz soa mais firme e suas letras, que já eram incríveis, tornaram-se ainda mais complexas, como dá pra perceber nas belas dez faixas.
Laura, por sinal, além de contar sobre suas experiências pessoais, possui uma forma incrível de narrar pequenas histórias em suas composições, com personagens e situações bastante sólidas, que podiam de fato existir. Tudo é detalhado com muito aprumo, e ela é certeira nas mensagens que procura (ou não) passar. Se a cantora tivesse nascido em outra época e não cantasse, provavelmente seria uma daquelas escritoras ou poetisas inglesas do passado, marcantes na produção literária feminina.
São diversos bons detalhes que tornam o trabalho fascinante. Além disso, “I Speak…” é terno (como em “Made By Maid”, em que Laura conta a história de uma empregada maltratada pelo filho adotivo e “Blackberry Stone”), tenso em momentos como “Alpha Shallows” e no embate travado na letra de “Hope In The Air” e aterrador em faixas como aquela que dá nome ao disco – e a música de trabalho “Devil’s Spoke”, mais country do que nunca. Entre outras, destaco “Goodbye England (Covered In Snow)”, segundo single e minha favorita até o momento – a narrativa de uma paixão conflitante em clima de despedida, com a Inglaterra “coberta de neve” como pano de fundo é tão doce, rica e tocante que por si só merece ser ouvida.
Laura Marling mudou em seu segundo disco, porém, sem perder sua essência – uma das maiores provas de talento que poderia dar. O disco, pra mim, já é um dos mais memoráveis do ano e teremos novo lançamento logo, se aquilo que ela cumpriu for prometido. Então, no segundo semestre, teremos mais um apanhado de boas músicas da inglesinha pra comentar.































