Semana passada a gente disse categoricamente que 2012 seria “O” ano no que se referia a lançamentos de grandes artistas. Debuts aguardados como o de Lana Del Rey e a volta da Rainha do Pop eram alguns dos títulos que encabeçavam nossa listinha. E no final a gente se despediu dizendo que teria mais…
Pois bem, eis que estamos de volta. Dando prosseguimento a lista, apresentamos aqui a segunda parte de Os Discos Mais Aguardados de 2012. Se o pop e a música indie mais introspectiva dominaram a primeira seleção, nessa o rock se faz presente com gente da velha guarda, gente da nova guarda e gente que a gente simplesmente adora.
Vem com a gente e comece a salivar, porque, meus amigos, vem coisa boa por aí!
Falar sobre Mylo Xyloto, o álbum que os caras do Coldplay lançaram oficialmente na última segunda-feira, foi uma tarefa bastante árdua para mim.
Odeio Coldplay. Mas como sou do tipo de cara que quando vai falar mal de alguma coisa gosta de falar com propriedade, decidi ouvir, com a máxima atenção, o tal disquinho. Vencido o primeiro desafio, que era dar play (adiei tanto esse momento!) e quebrei a cara com força. O que eu ouvi ali não era o que eu esperava. Pelo menos, não de um álbum do Coldplay.
O que sempre me incomodou no Coldplay foi a ausência de um estilo próprio. Ao meu ver, Chris Martin e companhia não queriam desenvolver um tipo de som que era só deles; eles queriam absorver e reproduzir em seus trabalhos influências de seus ídolos. Até aí, tudo bem. Poucas são as bandas que nascem com uma concepção delineada do que querem ser e fazer. Só que no caso de Coldplay a vontade não era apenas deixar visível suas influências. A vontade era de soar tal qual igual a ídolos.
O crescente sucesso de crítica e público era, de certa, forma compreensível. Apesar da falta de “personalidade”, as melodias pareciam familiares, os vocais de Chris Martin, quando não eram afetados, eram bastante bons e as letras das músicas falavam explicitamente sobre o que queriam dizer. Gostar de Coldplay era “fácil”.
A banda, confortável nessa posição, se empenhou ao máximo em criar hits que reprisassem a essência de sucessos anteriores. Canções que, de fato, eram bonitas e universais (eles não discorriam sobre temas particulares, eles falavam de uma maneira geral sobre o que muita gente sentia) eram entoadas até que perdessem o sentido.
E eles, por sua vez, tentando atender a expectativa dos fãs conquistados, pareciam entregar faixas enfadonhas e requentadas. Se até aquele momento o Coldplay não tinha um “estilo próprio”, com o colossal erro de XY, terceiro álbum, eles estabeleceram características marcantes o suficiente para que as composições fossem assimiladas a eles. As músicas eram ora grandiosas, prontas para serem cantadas em um som unissono em grandes estádios; ora simples e intimistas – como as gravações de Parachutes e A Rush of Blood to the Head, respectivamente, o primeiro e o segundo disco da banda. O tal “estilo” se confirmou com o lançamento de Viva La Vida or Death and All His Friends. Com um ar épico e repleto de hits radiofônicos, Viva La Vida confirmou a ambição da banda em ser a maior do mundo. E estava feito. Depois de quatro discos, finalmente o Coldplay tinha um estilo que era deles e não de outros. Mesmo assim, eles ainda não me convenciam.
E foi assim, com desconfiança e ressalva, que dei play no último disco do quarteto. Não precisei de mais do que cinco minutos para ser completamente desarmado. Como eu disse no início do texto, o que ouvi não era o que eu podia esperar do Coldplay. E isso era ótimo.
Em Missing, uma das faixas mais legais do álbum de estréia de Eliza Dollittle, a morena avisa logo de cara: “I am Doolittle but I do a lot.” Por mais infâme que seja o trocadilho, tenho que concordar. Ela faz mesmo.
No Surprises, uma das canções mais conhecidas do Radiohead, é uma faixa tão angustiante quanto bela. A voz serena de Thom Yorke e os arranjos, que em determinados momentos lembram uma cantiga de ninar soturna, embalam o desabafo de um personagem profundamente cansado de sua própria vida, e disposto a dar um fim nessa situação, “sem alarmes e sem surpresas”. É daquelas gravações que ardem dentro da gente, com uma carga emotiva gigantesca.
Tanta tristeza traduzida em palavras assustou a EMI, gravadora da banda que estava prestes a lançar Pablo Honey, o primeiro álbum em 1993, a ponto de ameaçar demiti-los por causa da música. O que os executivos da EMI não sabiam é que muita gente se identificava com o sentimento de Thom.
E acabou que foi com Creep, um exercício angustiante de autoconsciência, que o Radiohead foi apresentado ao mundo.
E foi também com Creep que as meninas do coral Scala & Kolacny Brothers também ficaram conhecidas. Quando os primeiros trailers de A Rede Social, de David Fincher, invadiram a web, a música usada chamou a atenção de todo mundo. As vozes, quase infantis, entoavam de uma maneira nada inocente os versos – aumento a sensação de claustrofobia que as imagens geladas provocavam -, chegando a seu ápice no perturbador refrão.
A dor pessoal de Yorke deixou de ser pessoal e passou a ser coletiva. Deixou de ser triste e passou a ser opressora. Mas continuou a ser cruel.
Eliza Doolittle ainda é uma figura pouco conhecida na indústria fonográfica, mas se 2010 trouxe algumas revelações no meio, ela certamente é uma delas. Adotando o nome da personagem de Audrey Hepburn em “My Fair Lady”, a garota apresenta um repertório autoral, cheio de “feel good songs” levemente ácidas e sempre cativantes.
Existem discos que são lançados com um prazo de validade invisível estampado. Álbuns de fácil digestão, que emplacarão alguns hits nos meses que seguem seu lançamento, gravados por artistas algumas vezes realmente talentosos e outras vezes não. Depois de nos entreterem por um período de tempo, esses trabalhos são esquecidos, datados, limitados a uma única temporada – bem como seus donos, em certos casos.
Katy Perry, bem antes de estourar com o hit “I Kissed a Girl”, já percorria os caminhos da indústria fonográfica de forma discreta. Antes conhecida pela alcunha de Katy Hudson, a mocinha já havia gravado um disco de canções gospel e liberado uma ou outra musica aqui ou ali, como aquela que me fez conhecê-la, a adorável “Simple”, inserida na trilha sonora do subestimado “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”. Um bom tempo depois, lançou “One of The Boys”, produzido por nomes diversos, como Dr. Luke (Britney Spears, Ke$ha) e Glen Ballard (Alanis Morissette, Lissie) virando rainha das FMs e até um MTV Unplugged.
Foi lançado essa semana (depois de ter vazado na net, por sinal) “Teenage Dream”, o sucessor de seu “debut em larga escala”, que, como todo segundo disco de inéditas que se preze, prova algumas coisas na carreira de um artista. Katy encontra-se naquele nicho de artistas do primeiro parágrafo, cujo trabalho é consumido facilmente. Espirituosa e esperta, ela arrisca em certos momentos, criando, além de animados convites à festas e momentos de descontração, algumas pequenas canções confessionais e mais íntimas onde mostra estar acima de algumas concorrentes. O novo compacto prova que Katy equilibra bem seu lado comercial e o outro, mais livre, inclinado a criações mais pessoais. Mas ainda falta alguma coisa.
A primeira metade do álbum é cheia de sucessos em potencial – músicas com gigantesco potencial para tornarem-se singles e serem executadas à exaustão: os dois singles lançados até o momento, por exemplo, estão entre as seis faixas iniciais. “California Gurls”, parceria com Snoop Dogg, já está tocando na rádio há um bom tempo e batendo recordes nas paradas de diversos países. Tido por alguns como uma cópia de “Tik Tok”, da sua colega Ke$ha, é uma homenagem às garotas da Califórnia, terra natal da cantora. Com o mesmo espírito celebrativo da faixa com a qual é comparada, é outro grande hit do ano: Katy personifica as características das moças de sua terra transitando entre a malícia e a ingenuidade.
“Teenage Dream”, a segunda música de trabalho, já está mostrando presença: mais doce do que açúcar, tem tudo o que precisa para tornar-se a canção romântica (e saturada) da temporada. É realmente uma graça, mas que surge somente grudenta e não inovadora. Ganhou um clipe utópico, que reforça a idéia de amor perfeito que a letra passa. Katy aparece nos braços do modelo Josh Kloss na praia, na cama, na estrada e em todo lugar, divertindo-se como se não houvesse amanhã ao seu lado e junto de diversas outras pessoas, num ar de bagunça controlada. Todos lindos, afim de uma agitação e com cara de que não peidam. Veja abaixo:
“Last Friday Night” é daquelas músicas que tem o poder de te trazer sorrisos legítimos quando você escuta. O retrato de uma sexta-feira incerta que ficou marcada na memória da cantora é perfeito para ser ouvido antes de uma noite que promete, típica canção para esvaziar a cabeça e sentir com o corpo, de preferência em grupo e com liberdade pra dançar. É como uma “I Gotta Feeling”, não por semelhança, mas pelas sensações que te desperta. Destaque para instrumentos de sopro frenéticos que surgem de surpresa e os histéricos gritinhos de “T.G.I.F” – em inglês, “Thanks God It’s Friday!”. Irresistível.
“Firework” é apoteótica e esperançosa. Apesar de clichê – com direito a frases batidas como “After a hurricane comes a rainbow”, consegue soar sincera e eficaz em sua missão de elevar o astral do ouvinte. Já tá valendo. “Peacock” é uma faixa nada sutil sobre a vontade de Perry em ver o…er, “pavão” (!) do rapaz por quem está afim. É o momento debochado do álbum, que a gente também não vai levar muito à sério. Lembra muito a clássica “Mickey”, de Toni Basil, hino farofa e com ares “cheerleader” dos anos 80.
A partir daí, Katy arrisca reflexões sobre sua própria condição, experiências passadas e aspectos da vida amorosa de modo mais particular. “Circle The Drain” é ácida ao tratar de um relacionamento onde um dos parceiros tem tendências evidentes à auto-destruição: “I’m not sticking around to watch you go down”, canta, categorica. “The One That Got Away” remete à algum capítulo de sua adolescência, algum ponto onde não retribuiu os sentimentos de um rapaz – o seu Johnny Cash particular – e se arrependeu amargamente depois. Parece tão à vontade contando as peculiaridades da relação, permeada por canções do Radiohead que você se sente familiarizado com a história mesmo sem nunca ter ouvido antes. Cativante.
“E.T.” narra a paixão da moça por um homem que parece um alienígena (não fisicamente, tomara!) e faz com que ela sinta coisas que nunca havia vivenciado antes. O conflito presente na letra (could you be the devil/could you be an angel?) não apresenta nada novo, mas a música é envolvente e tem sua força. A dramática “What Am I Living For?”, que traz vocais rasgados e um questionamento intenso sobre pressões e cargas difíceis de serem suportadas.
“Pearl” e “Hummingbird Heartbeat” formam um interessante contraponto: numa, Katy repele um parceiro que a fez fechar-se em seu próprio mundo, enquanto na segunda, ela fala sobre um amante que expande sua percepção sobre si própria, energias do amor (?) e sobre a química existente entre os dois. Sobra para a simples e bela “Not Like The Movies” fechar a tracklist – uma música sobre a eterna busca por uma relação amorosa satisfatória, que parece nunca surgir. É uma das melhores faixas do disco e merece ser saboreada com atenção.
“Teenage Dream” fortalece ainda mais o nome de Katy Perry nos charts, mas não representa nenhuma nova tentativa em sua carreira. Apesar disso, ela consegue imprimir sua estampa ao que lança. Nada essencial ou com potencial pra durar muito mais tempo do que uma estação, porém. Não que seja um problema: o disco pode ser efêmero como um sonho adolescente ou derreter tão rápido quanto algodão doce na boca, mas quem disse que isso não é, de vez em quando bom?