
Norah Jones é uma daquelas artistas que me fazem esperar pelos seus CD desde o dia em que anunciam na mídia a data em que eles serão lançados, ou começam a exibir detalhes dos mesmos por aí. No caso de “The Fall”, eles liberaram a capa (linda, por sinal) e o nome das faixa há uns dois meses. Só restava esperar. Junto com a foto de divulgação, foram publicadas notícias sobre o álbum, que diziam que ele seria um pouco diferente dos anteriores – ela exploraria novas vertentes e incrementaria seu som com algumas outras influências.
Os dois meses já passaram e há dois dias ele foi lançado comercialmente – sem considerar que já havia vazado há pouco mais de uma semana. É importante dizer que, sim, “The Fall” é diferente dos anteriores, mas ao mesmo tempo possui a essência deles. Norah, nesse trabalho , apenas está aderindo características ao seu som que pareciam mais esparsas anteriormente, mas estiveram sempre lá, mesmo que discretamente, em seus discos passados ou em projetos musicais paralelos com os quais ela se envolveu.
Norah Jones escolheu um novo produtor para trabalhar em seu quarto álbum, Jacquire King, que já trabalhou com Kings of Leon e Tom Waits – esse segundo, cantor que a influenciou declaradamente na nova criação. As mudanças não pararam por aí: ela optou por alterar completamente sua banda para a nova empreitada que viria a seguir. Tantas novidades realmente fizeram efeito e o entrosamento entre eles deve ter sido bastante bom, considerando o resultado final. Tá, sabemos que bons resultados nem sempre são sinais de “boa convivência” (né, irmãos Gallagher?), mas é assim que deve ter sido.
Pra começar, guitarras e baterias estão mais presentes nas suas músicas, e o clima do álbum é e menos “inofensivo” e ainda mais adulto do que os anteriores. A primeira faixa e também primeiro single, “Chasing Pirates” pode até enganar, mas a próxima, “Even Though” tem mais a cara da nova fase de Norah, assim como “Young Blood”, parceria com o cantor Ryan Adams, que dificilmente se encaixaria bem num de seus álbuns anteriores. “It’s Gonna Be” é outra que cai bem nessa categoria e uma das mais diferentes do CD – gostei dela logo na primeira vez que ouvi.
São gravações em que Norah deixa sua característica “doçura” (?) de lado para mostrar outras nuances. Ela soa mais incisiva em alguns momentos, em outros mais sensual e por vezes melancólica, transitando por diversos estilos, como o country desajeitado de “Tell Yer Mama” ou a faixa “Waiting”, que lembra uma das faixas do disco “New York City”, projeto com gravações de blues realizado em colaboração com o grupo The Peter Malick Group pela cantora em 2003. Ela brinca com o jazz, o rock e com outros estilos com o qual sente-se a vontade nesse momento da carreira para explorar.

Alguns momentos do disco, porém, são completamente “old Norah”, como a singela “December” ou “Back To Manhattan” ou mesmo a faixa de encerramento, “Man of The Hour”, sobre um amante imperfeito – e ideal. Geralmente, as últimas músicas de seus discos são bastante emotivas, ou demonstram a grade habilidade de Norah como pianista. Essa, por outro lado, parece despretensiosa e bem humorada. Reflexo de mudanças que ela está segura em trazer para seu trabalho.
“The Fall” têm, por vezes, um certo clima de jam session, como se seus componentes estivessem descobrindo novos sons para tocar – talvez com uma “informalidade” não muito grande, é claro. Norah ainda não demonstra tamanho desprendimento com suas canções, mas a liberdade para fazer o que quer torna-a cada vez mais envolvida nessa linha criativa. “The Fall” é um CD charmoso que abraça vários estilos musicais, sem que a artista perca sua essência, como eu havia citado no começo. Nada nesse álbum parece com algo que Norah jamais faria. Não é como se ela tivesse gravado um disco com o Timbaland, por exemplo. (!)
O álbum é, entre os quatro já lançados pela cantora, aquele que possui o ar mais “urbano”. Bons álbuns constroem imagens em nossas cabeças e “The Fall” poderia ser o retrato de um outono na cidade grande – fall, em inglês, pode significar tanto a estação quanto a palavra “queda”, ou, segundo a cantora defendeu em entrevistas, uma fase com mudanças de ritmo, um tempo na vida. Ela, que diz ter passado por uma temporada difícil durante seu processo de criação, parece recuperada e amadurecida, tanto pessoalmente quanto profissionalmente.