MIOLÃO • Vanessa Da Mata
 

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Vanessa da Mata – Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias

É sempre uma alegria quando Vanessa da Mata lança um novo disco. A moça, que se tornou uma das artistas femininas mais influentes de nossa música na última década, pode inserir novas características ao seu som em cada lançamento, mas nunca perde sua essência e a doçura especial que lhe é peculiar, além do modo adorável de narrar historietas que só ela tem.

Aparentemente, eu havia me esquecido disso quando ouvi “Bicicletas, bolos e outras alegrias”, seu mais recente álbum nas primeiras vezes. Ansiosíssimo, não agüentei e o baixei antes mesmo dele chegar às lojas: o problema é que essa afobação, aliada a minha falta de tempo para lhe dar a atenção merecida, fez com que eu tirasse conclusões precipitadas. Julguei que o compacto não era tão bom quanto outros da cantora, incluindo seu antecessor de estúdio, o fantástico “Sim”. Ainda assim, desejei comprar sua versão física – e foi o que fiz no fim de semana passado.

O trabalho de Vanessa não pode ser levado de forma leviana: merece ser sentido, degustado como um prato saboroso. Ela não é uma artista de PC, cujas canções a gente baixa e escuta enquanto navega na Internet. Não dá pra tirar conclusões sobre elas sem se envolver, se deixar levar pelo calor e a humanidade presente nas faixas.

Uma vez que você se abre, é envolvido por tanto aprumo e frescor. O disco em questão apresenta alguém disposta a fuçar em seu baú de influências, arriscar ainda mais em sua sonoridade e em sua forma de compor, transitando entre lamúrios, declarações, cantigas de puro humor e reflexões que chamam nossa atenção para pequenas coisas do cotidiano que são tão valiosas, mas geralmente passam batidas por nós.

Vanessa parece assumir a voz de diversos personagens para expor esse mosaico, como em “Fiu-Fiu” , onde ela reflete sobre o efeito dos anos em seu corpo, cantadas baratas e a competição existente entre ela e suas amigas. “Bolsa de Grife” é uma gravação empolgante em que relata a experiência de tentar suprir as carências da vida – sem sucesso – comprando o tal objeto do título, pago a prestações. Com um coro “ingênuo” e engraçadinho ao fundo, é tão curtinha que automaticamente colocamos no repeat. A faixa que dá nome ao álbum, “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias” flerta com o frevo e prega que “açúcar e afeto”, contradizendo Chico Buarque, curam desilusões.

A cantora disserta também sobre o amor, tema recorrente em seus compactos – esse, bem como os anteriores, também é repleto de canções sobre o sentimento e seus diversos desdobramentos. “O Tal Casal”, primeiro single, é permeado de paixão e anuncia o retorno de um parceiro amoroso como o fim de todos os males. Longe de ser a melhor do disco, é uma entre várias que se encaixam na temática dos relacionamentos, como a quase tecnobrega (!) “Vê Se Fica Bem” e a delicada “Vá”: na primeira, Vanessa decide que não irá mais aceitar ser tratada como amiga pelo seu par, que o faz mesmo vivendo algo mais ao seu lado, enquanto na outra, nutre forças para não voltar atrás após o termino de uma união.

O ápice do romantismo está na quase melosa demais “Te Amo”: piegas, poderia facilmente estourar nas FMs e “banalizar”, virando o tema de diversos casaizinhos país afora por uma temporada. Mas existe algo de muito belo em ouvir Vanessa cantando a plenos pulmões o insistente “te amo” do refrão e contando sobre sua vontade de chegar a velhice ao lado de seu amado. Soa tão sincero que, mesmo achando adocicado demais, não dá pra não considerar no mínimo fofo.

Vale destacar ainda o singelo dueto da cantora e Gilberto Gil em “Quando Amanhecer”: a química entre as duas vozes torna a faixa, intimista e cheia de cumplicidade, perfeita para encerrar um disco excelente, com ar de grande encontro.

A verdade é que eu citei algumas, mas poderia comentar faixa por faixa de “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias”. Vanessa da Mata nos entrega um trabalho que pode causar estranheza a ouvidos desprevenidos, mas é coerente a mistura de sons e sensações que ela vem apresentando em sua discografia. A cantora compartilha seu imaginário com identidade própria e nos brinda com esse apanhado de novas faixas, que remete a aventuras de amor, questões íntimas, brincadeiras de criança e cheira a quitutes de vó, tudo ao mesmo tempo. :)

Encerramos o post com o webclip oficial de “O Tal Casal”. Veja:

#Miolão Especial: Quando elas cantam…

Para o Dia Internacional da Mulher, o Miolão indica algumas canções que se encaixam perfeitamente na temática e valem ser ouvidas pelo conteúdo, pelo talento de suas criadoras – ou intérpretes – e por serem, além de tudo, marcantes. Confira abaixo e diga: qual é sua favorita?

Woman Left Lonely – Janis Joplin

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=klhK_4evO5c
A voz de Janis Joplin, que influenciou uma geração, aparece vigorosa como sempre nessa gravação: a trajetória da “mulher solitária” do título ganhou diversas versões, incluindo uma ótima com Cat Power nos vocais, mas o Miolaoteam opta, no caso, pela gravação original. Nada mais justo: Janis é uma das mulheres que mais contribuíram para a história da música e merece um lugar na lista.

Bobagem – Céu

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=zkc_oIwYwas
“Minha beleza não é efêmera como o que eu vejo em bancas por aí”, canta a carioca Céu, num sambinha cru e simpático lançado em seu primeiro CD, homônimo, de 2007. Ela declara em letra própria que sua essência reside mais do que somente na aparência. A música possui menos de três minutos e consegue deixar o seu recado: “ser mulher a vida inteira”, pontua.

Me and a Gun – Tori Amos

 

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=uKzCxi2yf5s
Aterradora. “Me and a Gun” é o relato real de uma tentativa de estupro pela qual Tori passou quando tinha ainda vinte e um anos. A música, que faz parte de “Little Earthquakes”, o disco que fez a cantora tornar-se conhecida mundo afora, é cantada à capela e causa arrepios pela naturalidade com que ela fala sobre o ocorrido, relatando os pensamentos que passaram por sua cabeça enquanto estava encurralada pelo homem em questão. Poética e chocante.

What It Feels Like for a Girl – Madonna

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=qYwgG2oyUbA
Com introdução da francesa Charlotte Gainsbourg, essa canção de Madonna fala sobre opressão e critica o papel submisso ao qual a mulher é submetida em alguns momentos de sua vida. O clipe da mesma, dirigido pelo seu ex-marido Guy Ritchie, foi censurado pela MTV e alguns outros canais de música por mostrar a cantora interpretando uma vítima de agressões físicas, que em um momento de fúria e acompanhada de uma simpática senhorinha começa a brincar de GTA na rua (?), atropelando os homens que encontra pelo caminho.

Travelling Woman – Bat for Lashes

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=a4XXkz4iFUM
Natasha Khan dirige o discurso de sua canção à uma mulher viajante e obstinada, dizendo que ela deve continuar trilhando seu caminho e ignorando as tentações do amor, que podem fazer seus planos irem por água abaixo. “Never fall in love with potential/cause you can’t see with your own eyes”, diz Natasha. O tom resignado e endurecido da canção, aliado aos arranjos precisos e a voz quase onírica de Natasha emociona.

Isobel – Dido

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=lpG4Pci6el8
Existem diversas teorias de fãs sobre o que a situação retratada na enigmática canção da inglesa Dido. Na letra da mesma, que é uma das melhores músicas do seu disco de estréia, “No Angel”, ela parece consolar uma amiga que perdeu seu filho, num aborto que não podemos entender claramente se foi espontâneo ou provocado. Isobel se sente ressentida pelo que aconteceu, enquanto Dido levanta questões sobre como teria sido a criança no futuro, caso tivesse nascido e tenta acalmá-la: “don’t punish yourself, live it well alone”. A cantora estabelece um diálogo marcante com a personagem, numa canção envolvente e misteriosa.

Todas as Mulheres do Mundo – Rita Lee

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=T1_z9ZKneAM
Rita Lee evoca todas as Xuxas, Madonnas, Dianas, Leilas Diniz e Evitas do mundo para mostrar, numa divertida canção de seu repertório, que as mulheres do mundo querem mesmo é poder. Sem duplo sentido, ok?

(You Make Me Feel Like) A Natural Woman – Aretha Franklin

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=-DSYZAiM-20
A canção clássica de Aretha Franklin foi regravada por nomes como Carole King e Celine Dion, que mandaram bem, mas não conseguiram superar a versão original e a emoção evidente da diva da black music, que canta sobre uma mulher que se sente plena devido a um novo amor que tomou conta de sua vida. Daquelas músicas que merecem ser relembradas diversas vezes.

Resposta – Maysa

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=z-AIc7yTJi8
Escrita pela cantora como um revide às criticas feitas em relação a sua vida profissional e particular, essa canção sintetiza toda a angústia e raiva reprimida que Maysa sentia por ter sua vida esmiuçada pelo público/mídia na época. “Se alguém não quiser entender e falar, pois que fale”, desabafa. Maysa teve uma vida breve, mas intensa. Uma canção marcante, que continua atual e pertinente nos dias de hoje, criada por uma das artistas mais expressivas de nossa música.

Girls Just Wanna Have Fun – Cyndi Lauper

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=x0cJnVeiMrw
Porque mesmo depois de quase 30 anos, as garotas ainda querem se divertir.

I’m a Lady – Santigold

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=PpL8odTN2_c
Nessa simpática faixa de seu debut, Santigold (ex-Santogold), conta vantagem por ser uma “dama”: decidida, que quebra corações e que provavelmente será  martirizada um dia por essa postura. A música é levemente sarcástica e cativa - talvez não no início, mas certamente depois de algumas audições. Vale ouvir.

Mary Jane – Alanis Morissette

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=IxBAuIuFGCk
Misto de homenagem a uma amiga e canção autobiográfica, a saga de Mary Jane, “a última grande inocente”, segundo as palavras de Alanis, é narrada de forma dramática e lindíssima. Impossível não se arrepiar com a letra fantástica e os diversos tons da cantora. Mary é, no fim das contas, igual a muitas mulheres, homens e muitos de nosso cotidiano.

Zé – Vanessa da Mata

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=JD1jX-qidBQ
Um relato delicado sobre um romance cheio de elementos antigos: tudo é descrito com tantos detalhes que quase dá pra sentir os tais cheiros de “hortelã, alecrim e jasmim”. Vanessa da Mata captou a ternura do ponto de vista feminino com maestria.

Ramblin’ (Wo)Man – Cat Power

Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=jD6HceVd5Y8
Nessa versão do blues das antigas de Hank Williams, Cat Power declara o amor que sente por um homem, mas também que sua paixão pela liberdade da vida é ainda maior: ela sabe que poderá machucá-lo por isso, mas é simplesmente o seu jeito e não pode evitar.

E você? Que outra canção colocaria na lista?

 

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