
Depois que Shakira começou a cantar em inglês, mudou o visual, ficou mais sexy e estourou ainda mais, muitos dizem que a cantora tornou-se apenas mais uma loira artificial do pop, ou argumentam que seus dias de musicista talentosa ficaram pra trás. Devo discordar das duas teorias, embora tenha ficado assustado com os primeiros rumores e imagens do seu novo trabalho, “SheWolf”, que foi lançado na primeira metade de Outubro.
Ela é uma artista inteligente. Seu trabalho, mesmo sendo bastante comercial e acessível, não é banal, e mostra-se superior ao de muitas outras cantoras pop atuais. Ela é uma ótima entertainer e não deve em nenhum quesito aos grandes nomes do show business. Canta, dança, compõe, sabe o que faz no palco… Ela inspira confiança nas direções de seus projetos. Apesar de seu último álbum de inéditas, o “Oral Fixation 2”, lançado há quatro anos, não ter me empolgado como o seu sucessor – mesmo sendo bom – é louvável seu talento e ousadia na busca de novos rumos para sua música.
Em entrevistas, a cantora disse que seu novo álbum teria o intuito de divertir e fazer as pessoas dançarem. Essa afirmação, vinda da boca de alguns artistas, é catástrofe na certa. Logo, a lista de colaboradores foi sendo divulgada, assim como os photoshoots oficiais – que traziam Shakira mais sensual do que nunca – e prévias de algumas músicas, que, de início, não pareceram ter “a cara” da cantora. Fiquei com um pé atrás. Será que os críticos ao seu trabalho estariam enfim certos? Decidi, então, que tiraria minhas conclusões apenas quando pudesse ouvir o álbum inteiro, e foi o que aconteceu.
Shakira, foi mal, eu duvidei de você à toa: “She Wolf”, sexto álbum de inéditas da cantora – sem contar “Magia” e “Peligro”, lançados quando ela ainda era uma adolescente saltitante e com cortes de cabelo questionáveis – é diferente daqueles lançados anteriormente por ela, mas possui o “tempero” que só Shakira poderia dar. É como se ela tivesse juntado várias das facetas que possui num único disco. Apesar da estranheza inicial, você pode ver Shakira por toda parte.

Em “She Wolf”, Shakira trabalhou com produtores diferentes do usual. Nesse, existem parcerias com John Hill, que trabalhou com a cantora Santogold (que por sinal, se você não conhece, deve ouvir!) e Pharrell Williams, membro dos The Neptunes e um dos melhores produtores atuais na cena pop – é dele o hit Hollaback Girl de Gwen Stefani e as melhores faixas do “Hard Candy”, da Madonna – entre outros. Eles souberam, cada um à sua maneira, canalizar as diversas vertentes que Shakira explora em suas canções.
“She Wolf”, ótima escolha para primeiro single, é uma das poucas faixas que realmente soam diferente de tudo que a cantora já gravou. É cheia de toques bem divertidos e ganhou um clipe à altura. Possui uma base eletrônica, solos de guitarra insistentes, uivos (!) e um refrão grudento. É contagiante assim como o segundo single, “Did It Again” – produzido por Pharrell - em que Shakira parece mais próxima de sua mistura usual de ritmos. Com os sons de uma escola de samba nervosa, parece estranha no início, mas te conquista com o tempo.
“Why Wait”, também de Pharrell, é outra que tem potencial para hit. Estranho é que, junto com “SheWolf”, não parece, pelo menos na primeira impressão, com algo que Shakira gravaria. Essa lembra de leve uma faixa de Madonna, “Incredible” também produzida por Williams. A batida é urgente e suas mudanças rítmicas tornam a missão de ficar parado enquanto a escuta quase impossível.
Se você gosta das músicas de Shakira com um pé mais evidente no “pop rock”, pode ficar feliz: “Men In This Town” e ”Mon Amour”, duas faixas do disco, entram facilmente nessa categoria. A primeira poderia estar na tracklist do disco “Laundry Service” sem parecer deslocada . Nela, Shakira fala sobre a decepção de não encontrar nenhum homem que valha a pena. Em “Mon Amour”, a decepção é diferente: aqui, a colombiana solta toda sua raiva contra um ex-amante que acabou trocando-a por outra. É uma canção de dor de cotovelo, mas bem humorada. A forma como Shakira “detona” o casal lembra, de certa forma, “Si Te Vas”, do álbum “Donde Están Los Ladrones?”. Ela também diz que, no final das contas, o cara vai voltar, e arrependido. Uma das letras mais características da cantora que você encontrará em “She Wolf”.
“Gypsy” é o momento mais doce do álbum e provavelmente o terceiro single do disco – excetuando “Give It Up To Me”. Shakira surge sem muitos artifícios e cantando lindamente. Só a introdução da música já cativa. Merece estourar. Em seguida, “Spy”, parceria com Wyclef Jean – que já havia produzido “Hips Don’t Lie” com Shakira – fala de uma espécie de embate sedutor, onde Shakira diz aceitar a obsessão do seu parceiro e gostar de sentir-se desejada por ele. Ui! As brincadeiras vocais da cantora chamam a atenção novamente nessa faixa.
Algumas faixas do álbum se destacam menos que as outras, como é o caso de “Long Time”, que precisa de paciência para ser degustada e parece completamente deslocada do restante no início e “Good Stuff”, que apesar de redondinha, dançante e cheia de elementos latinos, fica devendo. Provavelmente ganhará força em performances ao vivo. E tem, claro, “Give It Up To Me”, featuring com Lil Wayne produzido por Timbaland e adicionado na versão americana do CD. Apesar das colaborações de peso, a música é morna e parece ter sido feita sem muita inspiração.
Povo, pode ouvir sem medo: Shakira ainda é a mesma. Desprendida, ela não abre mão de certos aspectos de sua música e oferece diversão, como queria – mas consistente e de qualidade. “She Wolf” daria errado se fosse lançado por qualquer outra cantora que não tivesse a visão de Shakira e a versatilidade que ela sempre possuiu. Dificilmente seu próximo álbum será igual a esse e seus fãs, ainda assim, encontrarão prováveis novidades.