MIOLÃO • Cinema - Extremely Loud & Incredibly Close
 

Extremely Loud & Incredibly Close

Quando falamos sobre Tão Forte e Tão Perto numa postagem antiga do Miolão, destacamos algumas de nossas inseguranças quanto ao filme. No topo da lista, sem dúvidas, estava a sua temática, uma vez que produções tratando do 11/09, há algum tempo, deixaram de ser novidade. Outro ponto apresentado, foi que narrativas a respeito de jornadas tortuosas, mas que levam as personagens a algum tipo de descoberta transcendental, também já estão batidas e, dependendo da abordagem adotada, se tornam um tanto insossas. O que mantinha o nosso otimismo, além do belíssimo trailer, era quem estava a frente do projeto: Stephen Daldry.

Com uma carreira curtinha, mas sólida e que conta com excelentes títulos, como As Horas e Billy Elliott, Daldry demonstra uma sensibilidade aguçada e peculiar, que se deixa ver pelos planos adotados em seus longas, pelas cores, pela maneira como apresenta suas personagens (aqui devo lembrar da cena de abertura de As Horas, que exemplifica isso da melhor maneira possível). Enfim, pelo cuidado, carinho e proximidade que demonstra ter com o seu material. E é exatamente nas pequenas sutilezas, tão caras ao diretor, que Tão Forte e Tão Perto se distancia do drama barato e nos apresenta um enredo encantador.

Baseado no romance de Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, o filme nos conta uma história sobre o 11 de setembro de um ponto de vista bastante único, na medida em que não quer ser sobre um dia sombrio para toda uma nação, mas sobre pessoas específicas. Assim, as personagens não são postas ali para funcionar como representação de todos que perderam alguém no 11/09, mas antes para dar início a uma história sobre luto, perda, tristeza e as maneiras, ainda que tortas e incomuns, de se encontar alento após uma tragédia.

Oskar (Thomas Horn) é um garoto de 9 anos, com uma criatividade e uma inteligência acima da média. Ambas são incentivadas por seu pai (Tom Hanks), que constantemente lhe propõe desafios (em sua maioria, expedições para caçar alguma espécie de tesouro escondido em Nova York) para, ao mesmo tempo, aguçar essas duas características e forçar o filho a socializar – tarefa na qual encontra grandes dificuldades. Por uma infeliz coincidência, o pai de Oskar se encontra no World Trade Center durante os ataques e vem a falecer. Nessa cena se apresenta uma das sutilezas citadas: ficamos sabendo do que aconteceu com a personagem de Hanks através de recados deixados para a sua mulher na secretária eletrônica. Primeiramente, ele soa calmo, como se desconhecesse a extensão dos ataques e acreditasse na possibilidade de sair dali. Á medida que vai percebendo o que ocorre a sua volta, se torna agitado até culminar num recado com tom de urgência e despedida. Acredito que o fato de nunca vermos o personagem dentro do prédio ajuda a experienciar a impotência que o menino sente perante a morte dele e foi uma das escolhas que contribuiu para diferenciar o longa dos demais.

Assim, quando Oskar encontra uma misteriosa chave no meio das coisas de seu pai, o garoto passa a percebê-la como o princípio mais uma de suas expedições. De uma maneira muito organizada, anda pelas ruas de Nova York seguindo a única pista que possui: o nome Black escrito no envelope que continha a chave. Oskar acredita que essa busca manterá o seu pai próximo por mais algum tempo. Então, ele acaba se encontrando com pessoas de todos os tipos, algumas disposta a tentar ajudá-lo a lidar com o luto, outras que sequer querem ouvir o que ele está fazendo a sua porta, mas todas elas, de alguma maneira, contribuirão para o desfecho do longa. Nesse ponto, alguns podem dizer que Tão Forte e Tão Perto encontra sua falha, já que a jornada faz com que a história estacione por algum tempo. Vemos somente visitas, o menino trabalhando com pistas mínimas e não obtendo respostas. Mas a aparente estagnação do roteiro também é o que levará a duas coisas extremamente importantes: a compreensão da personagem de Sandra Bullock, que vive a mãe, e a inserção do misterioso inquilino (Max Von Sydow) da avó de Oskar. Além disso, é durante a busca que somos apresentados a um dos detalhes mais bonitos de Tão Forte: o uso da trilha sonora no mesmo volume que (e, às vezes, ou pouco mais alta) a voz dos atores ressalta o quanto é desesperador para o menino sair sozinho pelas ruas da cidade e empresta ao longa um desenho de som dos mais bonitos que já vi (outro tão bonito quanto somente em As Horas).

Retomando as personagens citadas, Sandra Bullock entrega ao público uma atuação extremamente verossímil e emocionalmente articulada. Não conseguimos, por um segundo, duvidar do pânico que ela sente, do luto que a ronda e do desespero de precisar continuar vivendo e se esforçando para não deixar transparecer o quanto se encontra fragilizada para o filho. Ela percebe (e faz com que o público também perceba) o quanto Oskar é especial, mas também o quanto complicado fazer parte do seu mundo. Para o pai, a conexão era natural, já que compartilhavam dos mesmos interesses, para ela (e para nós) é mais trabalhoso.

O inquilino, por sua vez, passará a ajudar Oskar em sua busca, mas se mostrará outro desafio para o garoto – que sente uma necessidade imensa de extrair algum sentido de tudo que o cerca. A personagem de Von Sydow não é capaz de falar e, desse modo, eles precisam aprender outras maneiras de comunicação. Porém, é graças às limitações advindas da idade desse senhor que o menino vencerá alguns de seus medos advindos da morte do pai como, por exemplo, pegar um metrô ou ônibus. E contrariando tudo o que se espera numa situação dessas, não se firma entre os dois uma amizade no estilo dos personagens principais de Ensina-Me A Viver, mas algo, na mesma medida, incômodo e irresistível.

O desfecho, apesar de um pouco óbvio, é apresentado de uma maneira tocante. Percebemos que Oskar se acalma, na mesma medida em que notamos o seu crescimento. A necessidade de fazer sentido dá lugar a aceitação – último estágio do luto.

Talvez a recepção morna, pendendo para ruim, da crítica se justifique pela falta de carisma (intencional) do garoto. Porém, se ele fosse mais uma daquelas crianças encantadoras e incrivelmente frágeis, a busca obstinada e a necessidade de compreender as coisas se mostrariam deslocadas e são elas as responsáveis por parte do andamento da narrativa. A verdade é que Tão Forte e Tão Perto não pode ser pensado separadamente do restante da filmografia de Daldry e quando consideramos a como um todo, percebemos que o diretor, apesar do talento e do potencial já revelado, talvez ainda esteja tateando. Não há traços o bastante em seus filmes para chamá-los de autorais, mas percebemos que ele vem experimentando e, através disso, descartando o que não funcionava muito bem (como a fórmula, hoje em dia batida, utilizada em Billy Elliott) e mantendo traços que o distingue dos demais (com o supramencionado desenho de som, testado primeiramente em As Horas). Assim, a qualidade de seus longas, salvo alguns tropeços em O Leitor, vem crescendo, conforme ressaltado na introdução. Tão Forte e Tão Perto, quando colocado ao lado do restante dos trabalhos de Stephen, representa algumas evoluções perceptíveis naqueles que, talvez, se tornem seus traços marcantes.

Extremely Loud & Incredibly  Close, Stephen Daldry, 2011.

Tão Forte e Tão Perto. Com: Thomas Horn, Max Von Sydow, Sandra Bullock, Tom Hanks, Viola Davis. 

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Insatisfeita crônica, mais canceriana do que gostaria de admitir, groupie de meio mundo e pau no cu o bastante pra falar de si mesma na terceira pessoa.

2 Comments on "Extremely Loud & Incredibly Close"

  1. Amanda,
    Seu texto sobre o filme trata exatamente das sutilezas que o filme tatuou em mim. Terminei de ler o livro de Safran Foer alguns dias antes de assistir o filme e tinha receio de que a adaptação cinematográfica não ficasse a altura da genialidade do romance. No entanto, saí do cinema extremamente emocionado com o modo delicado que a busca de Oskar foi retratada na telona. A dor da perda é sempre marcada pelo embate íntimo entre a vontade de permanecer no luto (para esticar a presença na ausência) e a superação do mesmo. Parabéns pelo texto que consegue trazer à tona o que realmente importa no filme. Incrivelmente bom!

    • Amanda disse:

      que comentário mais bonito, wolney! :) fiquei feliz de verdade com ele. brigada!
      eu ainda não li o livro, mas assim que tiver a oportunidade vou fazer isso. eu não sabia que era adaptação até assistir o filme.

Tem algo a dizer? Então diga!

 

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