Dizer que A Mulher de Preto (The Woman in Black), novo longa de James Watkins, é uma homenagem ao que o cinema de terror produziu de mais clássico é uma observação tão perspicaz quanto falar que a água é molhada.
O filme, assim como as afirmações acima, é óbvio, mas bastante verdadeiro em suas intenções. Sem medo de parecer antiquado, o diretor se apropria do que o gênero tem de mais característico e demonstra uma preocupação latente em criar uma sólida tensão psicológica antes de distribuir sustos fáceis. Essa singularidade fica bastante evidente logo na abertura: abusando de close-ups em bonecas de porcelana e tendo como trilha uma música doce, porém macabra, o realizador choca ao mostrar três crianças que depois de verem “alguma coisa” se levantam em silêncio e pulam de uma janela. Sem mostrar a queda e nada grotesco, a angustia e surpresa que o expectador sente surge como resposta a inocência rompida das imagens que acabou de ver. A confirmação de que algo terrível aconteceu se dá graças ao grito visceral de uma mulher que é emitido enquanto os créditos passam.
A inteligência do uso do som (e da música) é bastante presente não só nessa cena como em diversos outros momentos: como se o diretor pontuasse sua orquestração tendo como marcação tudo o que ouvimos.
Bastante direto, Watkins nos apresenta, com muita eficiência, Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) de modo que saibamos, logo nos primeiros segundos, que ele é um jovem viúvo e pai que ainda sofre com a perda de sua esposa. Forçado por seus empregadores a viajar para um vilarejo distante, o moço tem como missão encontrar documentos que validem a venda de uma casa. O problema é que os nativos não parecem querer a presença dele. Destemido, ele sai em busca dos papéis e se surpreende ao ver da janela da casa “a mulher de preto”. E… E contar mais do que isso estraga qualquer surpresa.
Contando com uma fotografia escura e carregada que imprime na tela os sentimentos angustiantes que seu protagonista carrega e uma direção de arte primorosa (perceba o cuidado dos objetos do chefe de Kipps e também como os brinquedos de época soam críveis e assombrados), A Mulher de Preto funciona muito bem em sua primeira hora graças a condução segura de de Watkins: compondo quadros onde ele consegue esconder de sua personagem principal “fantasmas”, o diretor se mostra hábil a fazer com que o público tema por seu protagonista. Outro fator interessante e que é digno de nota é a constante busca por ângulos que demonstrem a impotência do protagonista em relação a grandiosidade do que enfrenta – um bom exemplo é quando ele vê a casa pela segunda vez e ela parece ainda mais misteriosa e grandiosa do que a primeira, graças a uma leve inclinação de câmera).
Mas se o filme parece ser só acertos durante os primeiros ato, essa sensação se dissipa quando ele chega a seu terço final. O roteiro, que parecia respeitar o tempo da narrativa e de seus personagens, entrega soluções fáceis (uma ilustração perfeita disso é como a personagem de Radcliffe descobre “como se livrar” do fantasma da mulher de preto). Contudo, vale dizer que mesmo nos momentos mais forçados, o texto de Jane Goldman (roteirista de X-Men: Primeira Classe) é sagaz o suficiente a ponto de plantar no início da história boas âncoras – como por exemplo o comentário que a personagem de Daniel tece a respeito do carro de seu amigo -. Outro ponto positivo é o final da história que, mesmo não surpreendendo, funciona e honra toda a jornada que vimos na tela.
No fim das contas, A Mulher de Preto acaba sendo uma experiência bastante válida e divertida, mesmo apresentando momentos irregulares.
The Woman in Black, James Watkins, 2011.
A Mulher de Preto. Com: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Mary Stockley, Janet McTeer e Roger Allam.


















