Falar em injustiça no Oscar é, praticamente, chover no molhado.
Porém, fazer esse Top 5, exatamente no dia em que acontece a 84ª edição da premiação, foi absolutamente irresistível. Porque, como vocês devem ter percebido por esse post aqui, a distância entre o que nós consideramos justo e gostaríamos que acontecesse e aquilo que realmente vai acontecer, é gigantesca. E, em alguns casos, o “pedido” não chega nem perto do absurdo, como em todos os casos citados na nossa lista de hoje. Era só uma questão de bom senso.
Optamos por falar de edições do Oscar da década de 90 para cá e somente das categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator. Ou seria impossível tratar do assunto em apenas uma lista. Esse Top 5 teria que se transformar num especial divido em, pelo menos, 10 partes. Pois não teria como deixar de apontar o erro de não premiar Bette Davis por O Que Terá Acontecido A Baby Jane? ou Shirley McLaine por Se Meu Apartamento Falasse. Ou mesmo Philip Glass pela maravilhosa trilha sonora de As Horas. Ou ainda o fato de Alfred Hitchcock nunca ter recebido um prêmio…
Preparados para se indignar novamente?
5º RUSSEL CROWE VS. GEOFFREY RUSH, 2000.
Para abrir esse Top 5 que tem um tema tão desagradável (desculpem-me, mas eu acho que qualquer injustiça, por mais infamia que seja, é desagradável), temos o registro de um ano em que preferiram premiar a grandeza de uma super produção do que um talento visceral e cortante.
Falo do emblemático ano de 2000, quando a Academia optou por entragar a estatueta de Melhor Ator para Russel Crowe por seu desempenho em Gladiador. O longa, que marcou o retorno de Riddley Scott depois de um hiato de três anos, contava a épica história de um general, bastante honrado, que após a morte de seu rei foi preso como um animal e obrigado por um rei tirano (Joaquin Phoenix, indicado ao Oscar pelo papel) a lutar no grande Coliseu por sua vida.
Magistralmente bem filmado, a produção foi indicada a nada mais, nada menos do que onze Oscars e levou cinco homenzinhos dourados para casa – entre eles o prêmio de Melhor Filme e Melhor Ator. E é aí que chegamos a um fato curioso: nos últimos anos o neozelandês Russel Crowe tinha dado vida a tipos muito mais interessantes do que o general traído de Gladiador e tinha sido, de certa forma, ignorado quando realmente merecia o prêmio por suas performances em Los Angeles – Cidade Proibida e em O Informante. Não que em Gladiador o desempenho de Crowe seja ruim – definitivamente ele não é. O que acontece é que naquele ano todos que concorriam a estatueta de Melhor Ator tinham tido atuações superiores e mais memoráveis… Duvida? Então me diz se Tom Hanks por Náufrago, Ed Harris por Pollock e o incrível Javier Bardem por Antes do Anoitecer não mereciam mais o prêmio do que Russel? Mas um dos concorrentes em particular merecia mais do que qualquer outro: Geoffrey Rush pelo papel título de Contos Proibidos do Marquês de Sade não só tivera a melhor interpretação masculina do ano, como talvez uma das melhores da história do cinema.
Compondo um caractere que soava magneticamente (e paradoxalmente) atrativo e repulsivo ao mesmo tempo, Geoffrey se aproveitou da grandeza do seu personagem para entregar uma das atuações mais memoráveis da história do cinema. Com trejeitos afetados, uma caracterização física despida de vaidade e um entendimento bastante particular das nuances de um homem pervertido – que nas mãos de outro ator poderia soar monocromático e desinteressante -, o inglês, que quatro anos antes tinha vencido o Oscar por Shine – Brilhante, encontrou sua redenção em palavras baixas e muita perversão.
Na história, dirigida por Philip Kaufman, Rush dava vida a um Marquês de Sade decadente que diante de publicações nada honrosas se via preso em um hospício sem qualquer regalia. Lá, contando com a ajuda de uma empregada (Kate Winslet, também indicada ao Oscar pelo papel), conseguia escrever e fazer com que seus textos de alto teor sexual continuasse confrontando a sociedade da época e, principalmente, provocando a Igreja. Prejudicado pelo alto grau de lascívia do filme (vale lembrar que a sociedade estadunidense é hipócrita quando o assunto é sexo e que os votantes do Oscar, em sua maioria, são velhinhos), Geoffrey viu seu prêmio cair nas mãos de alguém que tinha tido um desempenho apenas correto. Um agravante foi também o fato da Academia se sentir em dívida com Russel Crowe, que já vinha “merecendo” o Oscar há tempos. Pena. Pena. Pena. Mesmo.
Só de pensar que tiveram a chance de premiar Geoffrey Rush pelo brilhante papel título de Contos Proibidos do Marquês de Sade, tenho vontade de chorar. Argh.
4º JULIA ROBERTS VS. ELLEN BURSTYN, 2001.
Dia desses eu vi um moço dizer no Twitter que o que Julia Roberts fez em Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento foi um dos raros casos em que uma mega-estrela entregou uma performance igualmente formidável à sua fama (vale lembrar que naquele longincuo ano de 2001 Julia era a atriz mais famosa e bem paga do mundo). Pode até ser que esse moço esteja certo. Pra ser sincero, eu mesmo piro muito nesse filme e reconheço que Roberts mandou muito muito muito bem no papel da mulher comum que defendia gente tão simples quanto ela contra os danos provocados por uma grande coorporação que tinha contaminado os reservatórios de água da região.
O ponto é que todo mundo queria vê-la ganhar um Oscar. E aí, pãns, ela foi lá, fez um filme diferente de seu habitual e ganhou.
No entanto, a devoção cega do público e dos votantes da Academia fez com que uma injustiça tremenda fosse cometida: ignoraram totalmente a Ellen Burstyn e seu desempenho em Réquiem Para Um Sonho. No papel de Sara Goldfarb a veterana atriz mostrou com sua cara, corpo e coração a que ponto poderia chegar a degradação de um ser humano em virtude da dependência de drogas (controladas). Na história, Sara Goldfarb era uma senhora respeitável de vida vazia que tinha como único passatempo acompanhar um programa de TV. Num belo dia, ela recebe uma ligação sobre a possibilidade de participar do tal programa. O chamado acaba sendo o estopim para que ela mergulhe fundo em uma dieta a base de anfetaminas que culmina em delírio, perdição e loucura.
O olhar da velha ao telefone, em determinado momento, é algo tão forte que eu duvido que Julia Roberts alcance um dia.
03º REESE WITHERSPOON vs. FELICITY HUFFMAN, 2006.
O que acontece quando uma atriz, quase desconhecida, mas competente, interpreta uma personagem complexa, extremamente triste e cuja doçura é difícil de perceber e acaba concorrendo ao Oscar contra uma atriz bem mais conhecida que ela, mas sem metade do talento, por um papel alegre e de “salvadora” de um grande astro do country/rock? A resposta é bastante óbvia: a segunda acaba vencendo.
A estreante (ou quase, porque ela já havia feito uma ponta em Magnólia e tinha um dos papéis principais em Desperate Housewives, um grande sucesso na época), Felicity Huffman vive um transexual em Transamérica. A história seria simples, caso antes de optar pela mudança de sexo a personagem, que agora deseja ser chamada de Bree, não tivesse tido um filho. Só pelo que foi dito, vocês já devem imaginar que interpretar alguém assim exige que o ator seja capaz de certas nuances, correto? Sim. E Felicity expõe bem os choques, as tristezas, as inquietações de Bree e consegue ainda manter as coisas leves. Porque, apesar da temática, Transamérica é um road movie leve e, dentro do possível, divertido.
Do outro lado temos Reese Witherspoon, já conhecida pelo grande público desde Segundas Intenções. Sua June Carter funciona como o contraponto perfeito para a atuação de Joaquim Phoenix, exatamente por operar como um momento de alívio entre as cenas densas e soturnas protagonizadas pelo ator. Não é que o desempenho de Reese seja ruim, na verdade, ele passa longe disso. Ela é engraçada quando precisa ser e passa emoção quando precisa passar. Mas é isso. Whiterspoon foi apenas correta. Em cena, ela nunca extrapola aquilo que cada momento pede, ela não surpreende.
Como eu disse, a vitória de Resee em cima de Felicity era previsível. E para entender o porquê, não é preciso ser gênio: Transamérica é um filme de baixo orçamento, dirigido pelo estreante Duncan Tucker (poucos estreantes têm seus filmes premiados, em qualquer categoria), que contava com uma atriz principal conhecida apenas por um papel na TV, um enredo que tratava de questões espinhosas e pouca distribuição. Johnny e June era uma cinebiografia, gênero que sempre rende muitas indicações e prêmios, contando com, pelo menos, 5 vezes o orçamento de Transamérica, caras conhecidas do grande público e, como se não bastasse, ainda tratava de um cantor country, gênero musical amplamente conhecido e muito apreciado nos EUA.
Façam as contas e me digam se nessa equação ainda havia espaço para considerar variáveis como mérito e talento.
02º ROBERTO BENIGNI VS. EDWARD NORTON, 1999.
1998: o ano em que o mundo chorou sorrindo com a história do pai que inventava mil e uma loucuras para fingir para seu filho que um campo de concentração era, na verdade, uma grande gingana que daria um tanque de guerra para o pai e filho que soubessem melhor se esconder. Estou falando do fantástico A Vida É Bela.
Os méritos do filme e do carisma de Roberto Benigni, o protagonista, são incontestáveis. Emocionante e engraçado, A Vida é Bela funcionava como uma bela crônica de amor. Ainda lembro quando em 1999 anunciaram o Melhor Ator daquele ano. Eu, ainda garoto, vi o italiano correr e quase pisar na cabeça de um monte de gente grande quando disseram que ele tinha vencido o maior prêmio do cinema. A felicidade de Benigni era tão evidente que eu nem consigo ficar triste por ele ter vencido – quando ele teria outra chance?
Só que por mais que A Vida é Bela seja ótimo e por mais que Roberto seja um cara legal, aquele Oscar deveria ter ido pra outro. Aquele Oscar era de Edward Norton por A Outra Histórica Americana.
Vivendo um nazista que preso por matar um negro na porta de sua casa encontrava uma espécie de redenção, Norton mostrou ferocidade e vulnerabilidade na medida certa. Desvairado de ódio, o ator assombrava pela qualidade e visceralidade – toda aquela raiva, tão irracional, parecia ser real. E o curioso é que quando o roteiro mudava de lado, ele, muito centrado, soube domar e fazer a transição de mentalidade com a mesma maestria, tornando tudo não só crível como também sensível. Coisa de grandes atores, coisa de Edward Norton.
01º GWYNETH PALTROW VS. FERNANDA MONTENEGRO, 2000.
Na nossa primeira posição, acho que poderíamos ter colocado “Todas as demais indicadas vrs Gwyneth Paltrow” porque, de certa forma, o roubo não foi apenas contra Fernanda Montenegro, já que em 2000, o desempenho mais fraco levou para casa a estatueta.
Gwyneth, normalmente, não foge do arroz com feijão. Constrói personagens razas e atua de modo correto. E se vocês acham que estou sendo severa, por favor, me provem o contrário. Assim, quando entregou uma interpretação acima da média para sua carreira, na medida em que a personagem possui algumas camadas a mais do que as que a moça normalmente desenvolvia (mas ainda muito abaixo do que deveria ser pedido para uma indicação ao Oscar), ganhou o prêmio pelo papel de Viola de Lesseps, em Shakespeare Apaixonado. Mas, claro, falar que foi apenas isso o que aconteceu seria muita inocência de nossa parte: todos nós sabemos que a The Weistein Co. estava metida na campanha de Paltrow pelo prêmio. E outra coisa que todos nós sabemos é o que acontece quando ela resolve se meter.
Embora pudessemos estender para todas as demais indicadas a situação de roubo, escolhemos falar de Fernanda Montenegro. Não por bairrismo ou coisa parecida, mas porque foi dela a melhor performance do ano. Em Central do Brasil, Fernanda Montenegro vive Dora, uma mulher que escreve cartas para analfabetos. Porém, o papel de Dora vai muito além de escrever as cartas: cabe a ela decidir quais histórias percorrem seus destinos e quais terminam ali. É também pelas mãos da personagem que temos contato com um Brasil desconhecido e fascinante, composto por pessoas em constante migração, mas que tentam estabelecar laços com os que deixaram para traz por meio da escrita. Somente comentando o enredo já podemos perceber a complexidade da personagem e a dificuldade em vivê-la. Como se não bastasse tudo isso, o contato com Josué (Vinícius de Oliveira), aos poucos, vai transformando Dora, que passa de uma mulher sem ética e preocupada apenas com a sua sobrevivência á alguém bem mais humano. Fazer essa transição parecer algo natural demandava sutileza, uma vez que tal mudança não poderia, nem por um momento, soar apressada. E Fernanda não só convence como emociona e cativa. Então, esse Oscar era o direito dela, bem como o primeiro lugar nessa lista.
Mesmo que o que aconteceu com os outros escolhidos desse Top 5 formem um ponto de interrogação na nossa cabeça, é essa a que mais causa revolta. Mas, se serve de consolo para vocês (pra mim serve), ganhar esse Oscar mais atrapalhou do que ajudou a carreira de Gwyneth Paltrow. A loira acabou ficando estagnada e ela nunca conseguiu se tornar uma atriz respeitada.
Esse texto foi escrito de maneira colaborativa. A introdução, o trecho sobre Reese vs. Felicity e o duelo que ocupa a primeiríssima posição foram escritos por Amanda Guimarães. Já os trechos que falam sobre os embates de Crowe vs. Rush, Roberts vs. Burstyn e Norton vs. Benigni são de Thiago Dantas.























Lembro de uma outra situação considerada “tosca”: a de Charlize Theron, que levou Oscar por Monster, uma vez que o fator preponderante foi mais a caracterização que a atuação em si. Naquele ano, teve atriz que saiu injustiçada mesmo?
ps: fazendo um paralelo, acho que deram o oscar pra Reese porque ela é legalmente loira e teve de ficar morena, fico revoltado com essas coisas! hahahahahhahahahah
No ano que a Charlize ganhou ela concorreu com Naomi Watts (21 gramas), Samantha Morton (Terra de Sonhos – o filme mais lindo do mundo!), Diane Keaton (que só foi indicada por Alguém Tem Que Ceder para incentivar as atrizes a fazerem comédia) e a menininha lá da Encantadora de Baleias. Eu acho que nesse caso não houve “roubo”. As performances mais fortes (Morton e Watts) se equiparavam a de Charlize. E véi, por mais que o “enfeiamento” da loira chamou a atenção, assim como em A Dama de Ferro, por baixo de toda maquiagem existiu, de fato, uma grande atuação.
)
EU ODEIO A GWYNETH PALTROW!
É bem forte essa afirmação…mas é a mais pura verdade.Não sei como ela ainda consegue se manter “atuando”.
Adoro a Gwyneth, mas aquele oscar foi a maior besteira de todas as premiações juntas.
Onde eu assino?
Sou apaixonada por Johnny & June, mas para a Reese Witherspoon ganhar um Oscar é forçar a barra. Mas no caso do Edward Norton, acho que a Academia preveu que ele faria uma bomba como Hulk…
Hahaha. Poxa, Júlia! Não fala mal do Ed, todo mundo erra. :~
E é aquilo. Oscar tem que premiar a performance daquele ano, não uma carreira. kkkkqueles